LIMIAR
Mais um dia da minha vida.
Que é mais um dia ?
As raras linhas que escrevo
e que só eu entendo.
A galeria dos quadros mudos,
a sala onde o ar não vai.
O arquivo álgido e insensível,
inexorável,
que me é imputado,
qual tributo não remível.
A verde viagem,
até onde o vento canta,
por entre os verdes ramos.
A corrente do rio, que flui,
entre as margens sinuosas.
O pórtico distante,
grandioso,
no limiar do horizonte violeta,
aquiescente.
Revejo e em mim conservo,
em comum,
as estrelas e os sonhos.
Cem, mil anos,
senhor de mim,
a mesma força me anima,
irreversível.
Até quando ?
As horas sublimes, ofereço,
ao deus desconhecido.
Umas ferem,
a derradeira mata.
Busco a divina felicidade,
proscrita,
para além do tempo e da razão.
Subjuga-me o desconhecido,
envolvo-me no incomensurável.