BERNARDO MARQUES
Notas Biográficas
1899 – nasce em Silves, a 21 de Novembro, Bernardo Loureiro Marques.
1918 – depois de cursar o liceu, em Faro, começa os estudos na Faculdade de Letras de Lisboa.
1920 – na 3ª Exposição de Arte promovida pelo Grupo de Humoristas Portugueses, durante o mês de Julho, no salão do Teatro de S. Carlos, apresenta ao público, pela primeira vez, os seus trabalhos: 14 cartões, 9 dos quais com impressões do Algarve.
1921 – abandona a Faculdade de Letras e começa na Ilustração Portuguesa e em O Século intensa actividade de colaboração artística que prosseguirá, depois, na Contemporânea, Revista Portuguesa, Diário de Notícias e outros jornais e revistas.
1926 – expõe no 2º Salão de Outono, inaugurado em 30 de Novembro na Sociedade Nacional de Belas Artes, e trabalha na decoração da parede do fundo do café "A Brasileira", no Chiado.
1929 – estada na Alemanha.
1930 – expõe no I Salão dos Independentes (Maio), na Sociedade Nacional de Belas Artes.
1931 – com outros artistas (Fred Kradolfer, Carlos Botelho e José Rocha) Bernardo Marques realiza as decorações do pavilhão português na Exposição Colonial Internacional de Vincennes.
1934 – em Paris, participa numa exposição de pintores portugueses e brasileiros efectuada no "Théatre de l’Oeuvre" e expõe na Casa de Portugal. Em Lisboa, colabora nas Festas da Cidade com trabalhos decorativos para o cortejo fluvial no Tejo.
1935 – a sua participação nas Festas de Lisboa é assinalada pela acentuação do espirito moderno que caracteriza a Feira do Terreiro do Paço, decorada por Bernardo Marques e Fred Kradolfer.
1937 – em Paris, pinta com Fred Kradolfer cenários para o "Théatre des Champs-Élysées" destinado a um espectáculo de folclore organizado por António Ferro. Bernardo Marques é um dos decoradores do pavilhão português na Exposição Internacional de Paris.
1939 – nos Estados Unidos da América do Norte, Bernardo Marques faz parte, com Kradolfer, Emmérico Nunes, Tom, Botelho e José Rocha, do grupo de artistas que realiza a decoração dos pavilhões portugueses nas exposições internacionais de Nova Iorque e de São Francisco.
1940 – na Exposição do Mundo Português, Bernardo Marques é um dos pintores-decoradores do Pavilhão da Colonização, secção de pavilhões da Vida Popular e "Portugal-1940".
1941 – Bernardo Marques é condecorado com a Ordem de Sant’Iago.
1945 – expõe, na Galeria Calendas, em Lisboa, com Ofélia Marques, Mily Possoz, Abel Manta, Dórdio Gomes, Diogo de Macedo e Manuel Bentes.
1949 – representado no 1º Salão Nacional de Artes Decorativas (S.N.I.-Maio-Junho) com ilustrações e arranjos gráficos em obras de várias casas editoras da capital. Chefe da equipa de decoradores da 1ª Feira das Industrias Portuguesas, funções que exerceu também nas 2ª e 3ª Feiras, respectivamente em 1950 e 1951.
1952 – com quatro desenhos, Bernardo Marques representa Portugal, por indicação do S.N.I. na Bienal Internacional "Bianco e Nero" de Lugano.
1953 – representado na Exposição de Vinte Artistas Contemporâneos em Portugal, na Galeria de Março.
1955 – concedido a Bernardo Marques o prémio de Desenho na Exposição Iconográfica das Pescas realizada no Instituto Superior Técnico.
1957 – na 1ª Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian são atribuidos a Bernardo Marques um prémio de Aguarela e um prémio de Desenho.
1958 – prémio especial de Pintura na Exposição de Artes Plásticas promovida pela Câmara Municipal de Almada.
1961 – representado na 5ª Exposição de Artes Plásticas organizada pela Câmara Municipal de Almada nas salas do Convento dos Capuchos e na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.
1962 – no dia 28 de Setembro morre, em Lisboa, Bernardo Marques.
BERNARDO MARQUES foi director gráfico das revistas Panorama (1941-1950), Litoral (1944-1945) e Colóquio (1959-1962). Entre as numerosas obras literárias cuja edição ilustrou ou dirigiu gràficamente contam-se as seguintes:
"Os Que se Divertem", de Luzia (3ª edição); "O Fado Canção de Vencidos", de Luis Moita; "La Dernière des Amazones", de Georges Raeders; "O Malhadinhas", de Aquilino Ribeiro; "Lisboa", de Luiz Teixeira; "Os Maias", de Eça de Queiroz, edição do Club Bibliophile de France; "O Livro de Cesário Verde"; "Portugal – Oito Séculos de História ao Serviço da Valorização do Homem e da Aproximação dos Povos (Comissariado Português da Exposição Universal e Internacional de Bruxelas de 1958); "Crónica da Fundação dos Caminhos de Ferro em Portugal", de Luiz Teixeira; "Aguarelas do Comandante Pinto Basto"; "História da Poesia Portuguesa", de João Gaspar Simões.
Após o falecimento de Luis de Montalvor exerceu a direcção artística e técnica da Editorial Ática. Fez, para o Círculo Eça de Queiroz, três painéis representativos do Passeio Público e interpretando vários capítulos de "Os Maias" e "Cartas de Fradique Mendes". Desenhou alguns cenários e figurinos para os Bailados Verde-Gaio, colaborou na decoração dos paquetes "Vera Cruz" e "Santa Maria" e, com o arquitecto Keil do Amaral, decorou o filme português "O Trevo de Quatro Folhas".
Memória de Bernardo Marques
Dos olhos à mão do artista, perfaz-se um itinerário de memórias. Na folha do álbum, corpo anónimo, dócil e aberto, inquietante na sua espera branca, esse percurso acontece ao pintor como uma biografia inesperada. São vários os tempos da memória e variado também o seu registo: as pessoas, as coisas, os sítios nítidos onde estão, o seu diálogo, a sua pitoresca e animada história, até. Não como numa cronologia, por ordem, para ser entendida mais tarde sem mais nada, antes uma necessária companhia de todos os instantes, de todos os humores, uma companhia que vem do longe de uma lembrada invenção, por vezes, e toma o seu lugar, naturalmente. O registo sem tumulto, deste vai e vem de memórias na folha branca do álbum é a intimidade do pintor. O seu ritmo, uma vivência. Da mão que traça o que foi visto, sente-se-lhe inteira a pulsação, o gesto amoroso confessado. Os gestos do início, inseguros, sem peso, aqui e ali postos como armadilhas de imagens que em breve se precisam com outros, muitos, sobrepostos, cruzados, ora sustidos como uma respiração súbita, ora desencadeados como uma certeza imediata. Por eles passam a luz e a sombra e o corpo das coisas é deles feito.
Uma escrita assim entendida, quem a propõe, quem a usa, exige-se. Confessional sem o propósito de o ser, o desenho de Bernardo Marques, torna-se ele, a pessoa, define-o. Do lado de cá, de um espelho, donde se espreitam costumadamente as figuras, o Bernardo só lá está quando estas devem ser, e exactamente, figuras. Aí, com o que outros delas tenham dito, dá-lhes uma cara parecidíssima, uma atitude que só pode ser aquela, uma roupagem sua, concretiza-lhes os hábitos e jeitos, veste-os de uma história, dá-lhes um lugar e um tempo seus, e irònicamente, fixa-as lá, para sempre. Mas não lhe serve esse espelho para o passeio na cidade, nem para interpôr na paisagem. Só e únicamente, para reflectir as figuras. Mas para lá das figuras, há as casas, as ruas e as praças da cidade conhecidas de todos, os areais e o mar, o céu luminoso, as montanhas e seus nevoeiros, uma árvore, as pedras dos muros pobres, as flores humildes dos campos iluminados. E as pessoas, as gentes, o amor real – não as figuras. A escrita exige-o. O encontro com o quotidiano deixa de ser um comentário. A realidade não está diante, está com ele, nele, o artista não pode estar do lado de cá e a natureza defronte. A longa experiência de ver, deixa de ser um exercício, interioriza-se mais e de fora só chega, o que a lembrança solicita, de mais sensível, próximo, e quase rigorosamente necessário.
Por uma janela aberta a natureza vem ao seu encontro, procurá-lo em casa, envolvê-lo. Não há dentro nem fora, mas apenas a coesão apetecida, a humildade magnífica do acordo, e o frémito de conhecê-lo. O tempo, é uma demora atenta, o desdobrar lírico de uma memória, nas noites e nos dias, ecos e luz na presença das coisas, nítidas, simples e coloridas, sem prenúncios de escuro.
E quando este surge, é lentamente como um crepúsculo, invisível e tenso. Entre os olhos e o gesto do pintor, o itinerário de memórias estava já cumprido. Só era possível ao Bernardo, estar sózinho no meio de tudo, distante na sua paisagem como um risco abandonado, perdido entre as pessoas e as coisas, como se as não entendesse mais.
E repentinamente, a sua mão fechou em sombra, o corpo inerte, inquietante e branco, das folhas do seu álbum.
(por Fernando de Azevedo)