FERNANDO PESSOA

QUE FOI ?:   UM "EXPERT" DA DISPERSÃO DO EU ?

Muito se escreveu já sobre Fernando Pessoa e muito se irá escrever. Há quem entre afoitamente pela sua vida dentro e há quem considere que poeta não tem biografia. Há quem se tenha abeirado apenas da sua obra poética mas quando se lhe aferiram os vários trilhos em que o autor do "Livro do Desassossego" se dividiu, não ficaram indiferentes à tentação de um esboço biográfico.

Octávio Paz afirmou que "a sua obra é a sua biografia"". Para quem, como Pessoa, que sempre duvidou da realidade, eis uma afirmação que o poeta aprovaria sem vacilar a fim de que cada um que entrasse, pendurasse o chapéu e fosse directamente ao assunto. Isto é, aos poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrena, que não foram poucos.

Alguém já disse que "nada da sua vida é surpreendente, excepto os seus poemas". Tudo promete que se fique ante o desconhecido em si mesmo.

Mas também há quem não se prenda no génio literário e que prefira aprofundar conhecimento na sua personalidade e, ainda, quem gostasse de meter o nariz na sua vida ou assestar a lupa nos seus actos, ou vasculhar recantos e situações do mesmo modo como se devassaram as suas cartas de amor.

Ele há quem se anime pela escrita, sob o ponto de vista grafológico e quem, antes, aprecie o belo estilo inglês, em que escreveu peças poéticas para o "Times" e o "Glasgow Herald", aprendido na Universidade do Cabo, e mil e uma outras coisas relativas ao poeta.

Se fosse possível havia quem, sem relutância, espreitasse pelo buraco da fechadura do tempo para devassar o privado e o íntimo do dia-a-dia de Fernando Pessoa.

Apesar de tudo sabe-se pouco.

Quem foi realmente Pessoa ?

Para uns, um pulcro empregado, responsável pela correspondência comercial de vários escritórios da Baixa; para outros, um funcionário falhado, a quem se lhe negou emprego por falta de habilitações literárias para dirigir a biblioteca do Conde de Castro Guimarães, em Cascais.

Nos dias de hoje seria um dos trezentos mil desempregados deste Portugal em reciclagem.

Cruzou, durante anos, as ruas da Baixa no caminho para os escritórios comerciais onde tratou de enfadonha correspondência estrangeira, frequentou modestas casas de comidas, conheceu a penumbra de cada taberna e escreveu poesia por todas as mesas de pedra dos cafés de Lisboa.

Descia pela manhã da Rua Coelho da Rocha, apeava-se no Camões, passava na Sá da Costa, cumprimentava alguém na Bertrand e por vezes descia aos Restauradores, à Clássica Editora para indagar sobre os "livros especiais" cheios de símbolos alquímicos, maçónicos e cabalísticos da corrente mística e esotérica que tanta influência teriam na vida e no pensamento do poeta levando-o a sonhar o Quinto Império.

Nos documentos do espólio de Pessoa lá andam, entre folhas manuscritas e outras dactilografadas, elementos maniqueístas e gnósticos e referências ao catarismo tão caro aos gnósticos que supõem a androgínia o estado ideal. Daqui a recusa ao comércio sexual.

De misticismo em misticismo, de ascetismo em ascetismo, Pessoa bateu as portas do saber, perguntou, interrogou e seguiu a corrente que data da Gnose e que lhe apareceu sob a forma medieval dos cavaleiros de Malta, dos Templários, deu uma volta pelos Rosa Cruz e emergiu na Maçonaria. Seguiu o rastro, os vestígios, dessa tradição oculta.

Escreveu, analisou e depois profetizou.

Os textos do espólio são a única pista possível. O caminho para se saber quem foi realmente Fernando Pessoa está longe de ser fácil. Há muitas notas e apontamentos imprecisos. É necessário interpretá-los, mais que isso, decifrá-los. Há vários capítulos de um ensaio que trata das leis da vida oculta. É dos anos em que pela noite encaminha os seus passos para o outro lado da Rua Passos Manuel, onde agora mora. Vai à Fraternidade. Frequenta as sessões. O entendimento contribui para enformar os textos que um dia serão o seu espólio sobre a filosofia hermética. E contribui, do mesmo modo, para estruturar o seu projecto poético. A iniciação, única e sempre a mesma, encontra-a tanto no pensamento filosófico como na actividade literária. Revela-se no desdobramento, princípio primordial dos gnósticos, dos cabalistas e dos alquimistas. Desdobramento é multiplicação. É, afinal, o desdobramento do poeta nos vários heterónimos, só e unicamente devidos à sua organização mental, à qual não é alheia uma disciplina do tipo iniciático.

Torna-se necessário aliar outra faceta de Fernando Pessoa a este conjunto a fim de completar o naipe. Ela está na mulher que Fernando Pessoa amou.

Ofélia Queiroz era 12 anos mais nova que o poeta e tinha 19 quando o conheceu. Fizera o 5º ano singular de Francês Comercial, aprendera a escrever à máquina no teclado nacional e internacional e sabia um pouco de Inglês. Não era pouco para a época, para mais tendo-se em conta que era mulher. Era pequena e magra embora os braços e as pernas fossem roliços e não se pintava. Apontamento colhido aqui, apontamento colhido ali, permitem-nos reconstituir o retrato de Ofélia, uma mulher permeável a todo o género de sensibilidades, ternuras e excentricidades de Pessoa.

Conheceram-se na Casa "Félix, Valladas & Freitas, Lda", onde Fernando Pessoa tratava a correspondência comercial. Ela respondeu a uma oferta de emprego. Tudo nasceu da primeira troca de olhares no primeiro dia de trabalho. Foi a 1 de Março de 1920. Morreu quando ele morreu. E ele morreu como um ser andrógino.

O POETA DO EROTISMO

Ainda que uma leitura em diagonal feita sobre as cartas de amor de Fernando Pessoa dirigidas a Ofélia, sejam o bastante para permitir encontrar ingénuas alusões que não são mais que a parte visível do iceberg de uma intensa sensibilidade vivida por Pessoa.

Nessa correspondência, que se encontra já estudada, há um elevado número de bilhetinhos em que um inocente "Kiss me" ou "dê-me um beijinho, sim ?", que nada mais contêm mas que no fundo revelam que Fernando Pessoa desejava e fazia questão de provocar o desejo em Ofélia. A alusão que uma vez fez às calcinhas dela, tendo em conta a época em que o bilhetinho chegou às mãos da mulher que tinha a obrigação moral de se mostrar absolutamente indignada, contém todos os laivos de sensualidade e de um forte desejo reprimido.

"O meu amor é pequenino, tem calcinhas cor de rosa", escreveu com fingida ingenuidade o poeta de "Epithalamium" e de "Antinous", obras escritas em inglês, repletas de poemas eróticos que ele próprio considerou impudicos. Inverteu o curso do descritivo, frente à atitude de Ofélia, com outro bilhete: "Não te zangues bebé, é que todas as bebés pequeninas têm calcinhas cor de rosa ...".

o erotismo em Fernando Pessoa tinha inevitávelmente que eclodir a partir do momento em que o poeta se instalou no centro de um clima de emoções mentalizadas.

Há sensualidades nas "Odes" de Ricardo Reis e há sensualidades no "Epithalamium" ou em "Antinous", obras que acendem uma luz no mundo erótico de Fernando Pessoa, permitindo-nos ver de forma mais clara essa faceta pouco conhecida do poeta.

Pode-se precisar que foi a sua complexa sensibilidade e o seu tão profundo pudor que o fizeram refugiar-se na língua inglesa para escrever esses poemas que classificou de obscenos, como se fora um esconderijo para se assumir, às ocultas, como autor erótico. Esta é mais uma faceta do cosmo de Pessoa que esgrime contra a reivindicação que dele se pretende fazer de ser apenas e todo lirismo.

FILÓSOFO DO HERMETISMO

Fernando Pessoa tinha outro amor, também, interessava-se por Magia, aliás, na sua biblioteca foi encontrado o livro "As Confissões", do mago inglês Aleister Crowley, com quem chegou, mesmo, a trocar correspondência.

As portas da Alta Magia abriram-se para Pessoa na Ordem rosicrucista. Desta vez encaminhou os passos para a Rua de S. José e visitou a AMORC. Sabe-se, depois de Einstein, que é mais fácil desintegrar um átomo que desintegrar um preconceito. São associações fraternais que as pessoas de bairro dizem não conhecer e que delas só sabem dizer que ficam para aquele lado, de um modo indefinido. Os seus membros e associados vêm sempre de longe, para um local onde se propicia o encontro.

Afinal que pessoa foi Fernando Pessoa ?

Pessoa foi fascinado pela gnose e pela iniciação. A princípio seria apenas uma curiosidade indiscreta mas logo entrou e buscou incessantemente no labirinto do hermetismo.

O seu interesse pela filosofia hermética e pelo ocultismo em geral, data de 1905 ou 1906 e ficou desde logo expresso nos poemas que então criou com o heterónimo de Alexander Search, quando tinha apenas 17 anos.

Consultou vários livros, estudou diversas obras e trabalhou tais matérias herméticas como a Maçonaria, o Rosicrucismo, a Cabala, a Alquimia, a Magia dos Egípcios, o simbolismo do Santo Graal, a Astrologia Geral, o tratado da Pedra Filosofal e de todo o Universo da filosofia hermética.

Apercebeu-se que o desdobramento e a multiplicação só depois de assumidos e esgotados conduzem à unidade. O poeta esteve, naturalmente, atento a este pormenor, que foi o que ele tentou e que marcou tão profundamente a sua obra e a sua vida.

De 1915 data a sua primeira tradução de uma obra destinada à "Colecção Teosófica e Esotérica". Tratou-se do livro de Annie Wood Desant, então presidente da Sociedade Teosófica fundada em Nova Iorque em 1875 e sediada desde 1905 em Adyar, Madrasta.

Em 1916 traduziu duas obras de Charles Webster Leadbeater intituladas, respectivamente "Clarividência" e "Auxiliares Invisíveis", estas destinadas à colecção "Biblioteca do Teosofista" que, tal como a anterior, era colecção da propriedade da Livraria Clássica Editora, dos Restauradores, que entre nós fez intensa propaganda da filosofia hermética.

Em 1921, foi uma vez mais, responsável pela tradução de um trabalho sujeito ao mesmo tema denominado "Compêndio de Teosofia", da autoria do mesmo Leadbeater. Nesse ano, em Setembro, o presidente mundial da Sociedade Teosófica aprovou e deu concessão de carta de fundação à secção portuguesa que tomou a designação de Sociedade de Teosofia de Portugal. Abriu à iniciação com dez ramos e com os seguintes membros societários: O Dr. João Antunes, que Fernando Pessoa conhecia bastante bem e a quem apreciava devido à sua "História e Filosofia do Hermetismo", o qual foi o primeiro presidente e secretário-geral que a sociedade teve, o coronel Óscar Garção, João Marques da Silva, Madame Jeanne Sylvie Lefèbre, Félix Bermudes, o homem do teatro, Ivens Ferraz, Manuel Maria Gomes de Abreu, Maria O’Neill, Sara Schultz Garcia, Júlio dos Santos Trindade, Teodorico Gorjão, José Florindo da Costa, Augusto César Ferreira, Eduardo da Costa Pratas, António Drummond Meneses de Jesus e outros.

Ali encorajava-se o estudo compara das religiões, da Filosofia e da Ciência e, sobretudo, das leis inexplicáveis da Natureza. Teria um dia representação oficial na Unesco. Nesse mesmo ano, surgiu, integrado na referida "Colecção Teosófica e Esotérica" um ensaio subordinado ao título "Luz Sobre o Caminho e o Karma", com a indicação de se tratar de uma tradução de Fernando Pessoa e o mesmo ensaio ter sido transcrito por um enigmático autor que se ocultou atrás de um "Mr. C.".

Em 1926 voltou a surgir novo título a integrar a citada colecção, cuja versão portuguesa, explicitava-se no frontispício, se devia a Fernando Pessoa. Dava-se como autor um tal Fernando António Nogueira de Seabra, definindo-se como "ensaio e outros fragmentos selectos do livro dos preceitos áureos traduzidos (para inglês) e anotado por H. P. B.". Sob um hipotético Fernando António Nogueira de Seabra pretendia esconder-se Fernando António Nogueira Pessoa. Tal como acontecera na saída do livro anterior não queria que se soubesse que fora o autor das duas obras sobre filosofia hermética. Ainda sob a mesma temática apareceu um terceiro livro cuja autoria se pode igualmente atribuir ao poeta da "Mensagem", que é "Cartas do Outro Mundo". Também inclui uma explicação preambular que tenta ser um biombo onde Pessoa se oculta como autor.

Na lista da "Colecção Teosófica e Esotérica" estas três obras estão indicadas sob os números V, VIII e X, sem referir autor, numa flagrante distinção com as demais obras ali publicitadas. Tenhamos pois Fernando Pessoa como autor destes três trabalhos de índole teosófica, incorporando-as na longa bibliografia do poeta, que é o local onde devem estar. Entre 1905, data dos primeiros documentos constantes do espólio filosófico-hermético de Pessoa e o ano de 1926 quando surgiram as duas últimas produções atinentes a tal matéria, decorreram 21 anos. É suposto que tantos terão sido os que Pessoa, com maior entusiasmo, se acercou da filosofia hermética que tanto fascínio sobre ele exerceu, sendo esta uma das facetas mais importantes da obra de Pessoa e que anda subjacente em todo o jogo que o poeta pratica com a heteronímia.