O AMERICANO DO PORTO
O Porto seria a primeira cidade portuguesa a utilizar os transportes públicos que eram então chamados "carros americanos".
Tal meio de transporte mereceria de Fialho de Almeida uma bem satírica descrição, com a qual muito se aproveitará no conhecimento de como seria um carro dito americano:
"Esta imensa máquina que era uma aplicação da nau de Vasco da Gama ao trânsito das ruas movia-se sobre quatro pequeninas rodas, puxadas por uns franzinos cavalos idealmente magros como Sara Bernhardt, mirrando-se como ela na estranha nevrose frenética do génio (…) Antes de se aventurarem lá em cima, muitas pessoas deixavam testamento".
"Mas daquela altura que majestosa perspectiva de casarias esparsas, o rio, a Torre de Belém, o Castelo, a serra de Palmela (…) Via-se tudo, norte a sul, oriente a ocidente, águas, ruas, arrabaldes ! Moradores de quinto andar situado na passagem do monstro (…)", prossegue Fialho de Almeida". Quando o omnibus vinha na vertical, passavam as pernas fora da varanda e ei-los no tejadilho do carro dando bons-dias aos outros passageiros".
Verdadeiras caixas, inestéticas, com um varandim no topo e servidas por cavalos escorridos a puxá-las. Traquitanavam cidade fora, sobre a disciplina rígida de trilhos de ferro.
A designação de "americano" provinha do facto de tais carruagens serem fabricadas nas oficinas estado-unidenses de John Stephenson & Company.
Em 1858 Albino Francisco de Paiva Araújo solicitou ao Governo "concessão para estabelecer um caminho de ferro dos denominados americanos" entre esta cidade nortenha e a Foz.
A autorização tardou e quem a obteria seria o barão da Trovisqueira, cerca de dez anos depois do primeiro pedido.
Um decreto de 15 de Agosto de 1870 definia, por meio de cláusulas, as condições em que era dada ao barão da Trovisqueira, ou à empresa que ele representasse, autorização para estabelecer à sua custa, na estrada pública entre a cidade do Porto e a povoação da Foz, esse meio de transporte.
Partiria da Porta Nova, em Miragaia, por nessa altura ainda se trabalhar na abertura da Rua Nova da Alfândega.
Um novo decreto de Dezembro isentava, nas alfândegas do reino, até 30 de Junho de 1872, quanto material fosse necessário para a construção do caminho de ferro onde as carruagens circulavam.
Uma condição apenas.
Se a obra não se encontrasse concluída naquela data, a concessão seria anulada.
José Dionísio de Melo e Faro e António Tavares Basto foram os concessionários que se seguiram e aqueles que levaram por diante tal melhoramento para a Cidade Invicta.
Em 1873 era autorizado um ramal que principiando no lado norte do Largo dos Mártires da Pátria seguia toda a Rua da Restauração até entroncar na Alameda de Massarelos na citada via férrea desta cidade à Foz e a Matosinhos.
A empresa que recebeu por transferência do barão da Trovisqueira a exploração da linha marginal e do ramal tomou o extenso nome de Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos.
A inauguração de tão importante serviço público foi em 15 de Maio de 1872, um ano antes de idêntico acontecimento se assinalar em Lisboa.
Quem, da melhor maneira, pôde expressar uma opinião sobre este novo meio de viação foi Catarina Carlota, Lady Jackson, uma ilustre viajante inglesa que, no Verão de 1873, visitou o Porto perfazendo "comodamente" o trajecto, em serviço público, entre a cidade do Porto e as povoações da Foz e de Matosinhos.
Deste acontecimento deixaria um interessante relato escrito:
"Os carros são espaçosos e arejados, sem sol nem poeira, toda a Europa os frequenta. Começaram a circular no ano passado, segundo me dizem, e têm tido grande êxito. Alguns destes americanos param na Rua dos Ingleses, na parte mais baixa da cidade, enquanto os outros levam os passageiros acima, ao topo do monte perto da Misericórdia (…)"
"Algumas vezes cheguei ao carro no momento em que partia já todo ocupado. O condutor abria a porta e dizia: «Uma senhora quer entrar». Imediatamente erguiam-se três ou quatro cavalheiros e eu sentava-me no lugar do sujeito mais próximo, o qual, cortejando-me saía, considerava aquela senhora".
Era uma cortesia muito comum no nosso país que, pelos vistos, a tanto não estava acostumada a celebrada visitante, no seu.
O serviço público fazia-se com a regularidade que era possível, e o utente portuense sentiu-se lisonjeado com um transporte tão moderno, cómodo e fácil. Na sessão camarária de 27 de Junho de 1872, foram apreciados dois novos requerimentos, enviados pelo governador civil, em que se solicitava a concessão para estabelecer nas ruas da cidade o caminho de ferro americano.
PEDIDOS DE LICENÇA
Um era de Melo e Faro, a rogar licença para prolongar a linha já existente da Rua dos Ingleses para dentro da cidade, em direcção à nova estação que se ia construir do caminho de ferro, de norte a leste, e que seria designada no futuro Estação da Campanhã.
O signatário era representante dos concessionários do caminho de ferro americano, então já em exploração.
O outro requerimento trazia assinatura de António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Pinto.
Na sessão de 24 de Outubro foi deliberado por votos a qual conceder autorização camarária. Favoráveis a Vieira de Castro e Evaristo Pinto havia os votos de dois vogais.
O parecer final transitou para a sessão de 27 de Março de 1873, e nessa foi aprovado por seis votos contra dois o pedido do grupo Vieira de Castro – Evaristo Pinto.
Só em Agosto do ano seguinte seria assinado, nos Paços do Concelho, o contrato por meio do qual o negociante Vieira de Castro e o engenheiro Evaristo Nunes Pinto podiam estabelecer o caminho de ferro pelo sistema americano através das ruas da cidade, ligando bairros entre si e a estação do caminho de ferro de norte e sul com o centro da cidade.
Nascia a Companhia Carris de Ferro do Porto.