O ATEÍSMO
FENÓMENO ACTUAL, O ATEÍSMO TEM RAÍZES FUNDAS NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO, DESDE O MATERIALISMO DE DEMÓCRITO AO EXISTENCIALISMO DE SARTRE.
AMBIGUIDADE DO ATEÍSMO – À primeira vista, os contornos do ateísmo parecem nítidos. Este é absoluto quando nega a existência de Deus e relativo quando se limita a pôr em dúvida a omnipotência divina. Mas surgem imediatamente dificuldades quando se procura aplicar esta simples definição às múltiplas variantes do ateísmo.
Existe um ateísmo por assim dizer espontâneo.
O homem, revoltado contra as leis divinas, recusa Deus. Querendo dar rédea solta aos seus instintos, decide rejeitar o jugo duma realidade superior cuja existência sente como a marca duma servidão, não querendo sujeitar-se mais à sua vontade. Este ateísmo confessado e praticado, e que não teme defrontar a opinião pública, provocou sempre atitudes irritadas através dos séculos. Qualifica-se de "vulgar", pois, limitando-se a uma atitude restritiva, parece servir únicamente de desculpa a uma conduta imoral e ser originado pela paixão culpável e pelo orgulho desmedido. "É um raivoso, um cão, um diabo, um turco, um herético, que não acredita nem no Céu, nem no Inferno, nem nos lobisomens", diz Esganarelo do seu patrão Dom João.
O ateísmo pode também resultar da vontade de poder. O homem vê em Deus, que o submete, um entrave, um peso morto, um obstáculo, que procura vencer. É o rosto dum deus arbitrário e tirânico nas suas decisões, dum deus que funda a sua soberania na fraqueza, na ignorância e na escravidão dos homens, o que ressalta do mito de Prometeu. É também muitas vezes em nome deste, que foi o primeiro a querer substituir-se aos deuses, que é lançado o grito de independência do homem.
Existe finalmente no homem esta marca de eleição que é a paixão da insaciabilidade. Ferido pelo mal que parece dominar a condição humana e não podendo resignar-se a ele, o homem acusa Deus disso mesmo. Já que este é incapaz de fazer reinar na Terra a justiça e a felicidade, incumbe ao homem substituir-se a ele. A obra de Dostoievsky, em especial, está cheia destes ateus sedentos de amor. "A vida", declara o ateu Kirillov em Os Possessos, "apresenta-se hoje ao homem como um sofrimento e um terror e é precisamente isso o que o engana. O homem não é ainda hoje o que há-de vir a ser. Há-de haver um homem novo, feliz e nobre, que vencerá o sofrimento e o terror e será ele próprio um deus. E o Deus lá de cima deixará de existir".
Contudo, esta tríplice revolta assemelha-se a um sopro violento que voltado contra uma chama mais a atiça. Apesar das violências extremas às quais por vezes leva, mais não é que uma fé invertida, uma fé contra Deus, tendo aliás pouca importância que esteja ao serviço dos instintos mais baixos ou seja inspirada por uma procura desesperada do absoluto. Ela reconhece aquilo mesmo que pretende negar, do mesmo modo que a abundância de blasfémias numa língua é testemunha do sentimento religioso do povo que a fala. Por uma espécie de dialéctica, a ruptura momentânea, em vez de conduzir a uma separação definitiva, é o prelúdio dum reconhecimento aprofundado. "O perfeito ateísmo", precisa Dostoievsky, " situa-se no cima da escada, no penúltimo degrau que leva à fé perfeita".
O ATEÍSMO HISTÓRICO – Uma vez afastado, por causa do seu ambíguo, o ateísmo espontâneo que é de todas as épocas e cujas tendências se inspiram em opções que estão ligadas à própria essência do homem, resta o ateísmo histórico, ou seja, o ateísmo, que obedece a determinações de ordem política, social e económica. Deste modo há sociólogos que julgaram descobrir uma ligação entre um certo declínio religioso e um certo desenvolvimento industrial e, dum modo geral, entre a indiferença religiosa e a tomada de consciência duma classe em ascensão. Seria da mesma forma excessivo ver o ateísmo únicamente por um estreito ângulo social, tornando-o a ideologia dos oprimidos em luta ao mesmo tempo contra a ordem estabelecida e o sagrado que a protege. Engels, melhor que qualquer outro, rectifica esta visão demasiadamente simplista:
É perfeitamente notável – escreve ele – que, enquanto os socialistas ingleses se opõem em geral ao cristianismo e são obrigados a suportar os preconceitos religiosos dum povo realmente cristão, os comunistas franceses, que pertencem a uma nação considerada pela sua incredibilidade, são por sua vez cristãos. Uma das suas máximas favoritas é "o cristianismo é o comunismo" e, com a ajuda da Bíblia, esforçam-se por demonstrá-lo pelo facto de os primeiros cristãos terem certamente vivido no regime de comunidade de bens".
Oscilando entre o pólo "constantiniano", ou seja, a alienação que sem cessar a ameaça como instituição do Estado, e o pólo "apocalíptico", ou seja, a promessa milenarista que comporta, a religião, se por vezes pode entravar a emancipação social, pode também servir-lhe de apoio poderoso e de eficaz estimulante.
É certo que o ateísmo é em grande parte tributário dos períodos de ruptura e de desmoronamento de valores que nessas épocas se produz. Mas pode ser professado não pela classe ascendente que procura fazer triunfar uma nova ideologia, mas também pela classe decadente que começa a duvidar da sua própria ideologia, acontecendo, todavia, que a antiga classe dominante permanece demasiado ligada ao que começa de repente a negar para chegar a uma nova concepção. Assim o epicurismo é, na verdade, como é costume dizer, "a filosofia de todas as decadências", mas pelo mesmo motivo ele é também a filosofia de todos os renascimentos. A corrente libertina francesa tem dentro de si, ao mesmo tempo, uma nobreza abastardada e domesticada e uma burguesia em pleno progresso.
O problema do ateísmo histórico começa a pôr-se a partir do momento em que a ideologia dualista da Europa feudal é completamente vencida pela ideologia monista duma burguesia da eficácia e da suficiência da luz natural. O conhecimento científico, que dá um poder de acção sobre os objectos da nossa experiência, vence a certeza dogmática que, em vez de favorecer o domínio da natureza, parece dificultá-lo. Além disso, a razão revolta-se contra as afirmações da fé, reduz o mundo à sua medida, supõe-o um dado e situa-o ao nível da experiência possível e real.
O conflito que surge entre a ciência e a fé aparece durante muito tempo como irremediável e insolúvel. Montesquieu constata-o, ao mesmo tempo que o deplora:
Não sei como acontece – escreve em Mes pensées – que é impossível formar um sistema do mundo sem ser imediatamente acusado de ateísmo: Descartes, Newton, Gassendi, Malebranche. Com esta atitude, nada mais se faz que provar o ateísmo, e dar-lhe forças, fazendo acreditar que o ateísmo é tão natural que todos os sistemas, por muito diferentes que sejam, para ele tendem sempre.
Na longa história do ateísmo em que o pensamento escolheu muitas vezes caminhos sinuosos e atalhos, é contudo possível distinguir duas etapas principais. A primeira é constituída pela natureza, que se procura fixar essencialmente nos traços da matéria, a segunda pelo homem, de que se retêm os elementos universais presentes em todos os indivíduos. A passagem da primeira à segunda etapa é, por assim dizer, imposta, por se tornar impossível determinar a matéria. À maneira da esfinge, a matéria põe um enigma cuja palavra é o homem.
A ciência poder-se-ia dar por satisfeita constatando fenómenos naturais sem tocar no domínio da fé; poderia rejeitar o "deus da explicação" sem por isso ter de atacar o deus da revelação. Mas, inebriada pelo seu poder totalmente novo, procura destruir toda a metafísica. Mais não reconhece que uma matéria eterna e ontológicamente suficiente, submetida a leis naturais.
Quanto ao homem, é concebido como essência da humanidade, reunindo em si mesmo todas as possibilidades de experiências e de plenitude. Mas este duplo despedimento da transcendência é apenas aparente. Substituindo à teodiceia dos teólogos uma cosmodiceia sob forma de matéria incriada e uma antropodiceia glorificando o Homem deificado, o ateísmo reintroduz sub-reptíciamente o motor sobrenatural e o princípio divino.
Saído do pensamento racionalista e mais ou menos integrado em concepções materialistas e humanistas, o ateísmo, ao longo dos séculos, é muito mais tendencial que declarado. Também é difícil traçar uma fronteira bem definida que dividiria os pensadores crentes dos pensadores ateus. O esquema da filosofia das luzes, que dividia a história em duas épocas, antes e depois do aparecimento da razão, ou então o de Augusto Comte, que distingue três estados sucessivos, parecem verdadeiramente inaplicáveis.
Só numa perspectiva histórica parece possível ver-se como o pensamento moderno vai tirando, um após outro, todos os apoios em que assentavam as verdades metafísicas e religiosas e como esse mesmo pensamento se esforça por neutralizar toda a inquietação e toda a procura do absoluto, reduzindo a crença a uma espécie de comportamento, até mesmo a uma simples ilusão.
O cosmonauta que, partido à conquista do céu, declara ao regressar não ter visto Deus é o resultado ao mesmo tempo grandioso e aflitivo deste processo.
O ATEÍSMO MATERIALISTA – O materialismo baseia-se necessáriamente numa pretensão de exclusivismo a favor da matéria perante um dualismo que faz coexistir a matéria e o espírito, o corpo e a alma, o mecanismo causal e a finalidade.
O ATEÍSMO HUMANISTA – O ateísmo que consiste em colocar o homem no lugar de Deus, tem a sua origem no idealismo alemão.
Também rejeita o princípio Gratia supponit et perficit naturam (a graça supõe e aperfeiçoa a natureza), insistindo no abismo que separa o natural do sobrenatural, abismo intransponível para a razão e que só o graça é capaz de vencer.