O DIA EM QUE O SUPER-HOMEM MORREU

(QUARTA-FEIRA, 18 NOVEMBRO 1992)

 

1º RECORTE

Dentro de algumas horas, quando a América começar a levantar-se, o número 75 do "comic-book" "Superman" trará ao conhecimento da opinião pública mundial a cruel realidade: o Super-Homem morreu. Longamente anunciada, a morte do primeiro e mais popular super-herói da banda desenhada, faz parte da representação que a cultura popular norte-americana tem sabido interpretar de si mesma, numa mescla de "show business", ritual e "happening" cuidadosamente programados. Cada vez mais humano, mais velho e mais próximo do cidadão comum à medida que foi envelhecendo, Super-Homem traíra há muito os ideais que o seu aparecimento projectara no seio da sociedade americana, que se reconhecia na fragilidade de um jornalista de carne e osso – Clark Kent - cujo "alter’ego" era o invencível e justiceiro Homem de Aço, que, num dia já distante de 1938, fora concebido por Joe Shuster (desenho) e Jerry Siegel (texto). Afinal, os mitos também se abatem.

2º RECORTE

A América ficará hoje em estado de choque quando ouvir nos telejornais de todo o país que o Super-Homem morreu ? Tudo leva a crer que não, tão bem preparada que foi a campanha desta morte, anunciada há algumas semanas pelo próprio editor do mítico super-herói da banda desenhada. O carrasco do Super-Homem chama-se "Doomsday (O Dia do Juízo Final). Os seus criadores fizeram-no um "superlunático" fugido de um "asilo cósmico para loucos". Por isso mesmo, sofrem agora a contestação de diversos grupos de defesa dos doentes mentais. É uma certa ideia da América que vai a enterrar. Para renascer, dentro de algum tempo, como muitos preconizam ? Só o futuro o dirá.

3º RECORTE

E agora, como regressar ?

Durante 54 anos, o Super-Homem combateu o mal na cidade de Metrópolis, lutando contra alguns dos mais fortes vilões que a banda desenhada alguma vez conheceu. Nunca sofreu um arranhão, nunca enganou a sua namorada Lois Lane, nunca teve defeitos. Por isso, estava a tornar-se maçador, enfadonho, chato.

Em 1986, a DC Comics decidiu transformá-lo aos poucos. O Super-Homem começou a ter insónias, a esquecer-se de se barbear, a chorar até. Tornou-se mais humano e, por isso, a sua morte não é uma faceta tão inesperada como poderia parecer à primeira vista.

Por outro lado, também ninguém considera inesperado o eventual regresso do herói que durante mais de cinco décadas foi o guardião do bem e uma imagem da América triunfante. Por isso, há quem se divirta já, no mundo do "show business", a prever como será esse regresso.

Cheri e Bill Steinkeller e Phoeb Sutton, produtores de diversas séries para a cadeia televisiva CBS, são bastante práticos: "O Super—Homem aprendeu com um Mestre Zen a diminuir o ritmo cardíaco para uma batida por minuto. Será no caixão que ele gritará ‘Surpresa, Lois’, revelando o verdadeiro humor kriptoniano", disseram ao jornal "The New York Times".

Para o produtor de "Dallas", Leonard Katzman, tudo não terá passado de um pesadelo de Lois Lane, do qual ambos (Super-Homem e namorada) se rirão muito no episódio que se segue.

Mark Leiner, autor de alguns livros cómicos, diz não haver dúvida que as células do Super-Homem terão sido guardadas por uma qualquer companhia de biotecnologia, pelo que será fácil criar outro, usando a engenharia genética.

O criador do Homem-Aranha, Stan Lee, propõe uma solução mais elaborada: "Ninguém sabia, mas Lois Lane estava grávida. Pouco tempo depois da morte do Super-Homem, ela dá à luz Clark Kent Jr., a imagem do seu pai. A combinação do sangue de um kriptoniano com o de um humano cria um fenómeno biológico único – faz com que o novo Clark Kent atinja a maturidade numa questão de horas, possuindo os mesmos poderes do seu pai".

4º RECORTE

O Super-Homem regressou, algumas semanas depois. Lá conseguiram uma qualquer forma de o ressuscitar.