OS PRIMEIROS ANOS DOS GENESIS

(publicado em 1992)

É impossível saber ao certo porque é que o ambiente das "public-schools" britâncias gera tantos grupos de rock. Não deve ser, pensamos, devido à estimulante qualidade das aulas de música. Também não se deve procurar a justificação para esse facto numa provável qualidade das instalações que ajude futuros músicos a avançarem, quais autómatos, para a sala de ensaios. Se quiséssemos ser cínicos poderíamos apontar como razão fundamental o interesse do governo inglês acordado para as potencialidades do rock quando os Beatles fizeram de "Love Me Do", em 1962, um estrondoso sucesso passível de angariar divisas com a exportação.

De qualquer maneira, em 1966, cinco músicos da escola de Charterhouse sentiram um forte impulso para formar uma banda e, separando-se dos seus grupos originais, deram origem a uma primeira formação dos Genesis. Tony Banks e Peter Gabriel (que vinham dos Garden Well) e Mike Rutherford e Anthony Phillips (dos Anon) juntaram-se ao baterista Chris Stewart e começaram a ensaiar e a compor.

Em Dezembro do ano seguinte, estes rapazes entregaram uma primeira maquete ao produtor Jonathan King (que era alvo de alguma credibilidade por ter assinado o "hit" "Everyone’s Gone to the Moon" que os baptizou e que lhes arranjou um contrato de gravação com a Decca. Assim nasceu o primeiro single do grupo, editado em Fevereiro de 1968: "The Silent Sun". No Verão desse mesmo ano, os Genesis dão entrada nos estúdios Regent, de Londres, para gravarem o álbum de estreia, "From Genesis to Revelation", um disco conceptual que já era marcado por um primeiro abandono: Chris Stewart saíu, John Silver entrou.

O primeiro álbum dos Genesis (e último para a Decca, a mesma editora que originalmente recusou os Beatles …) foi editado em 1969. Quando chegou a altura de começarem a fazer espectáculos, Os Genesis substituíram John Silver por John Mayhew e, em Setembro desse mesmo ano, estreiam-se no seu primeiro concerto com cachet: ganharam 25 libras … 36 anos depois, a diferença é significativa.

Já libertos da Decca e de King, os Genesis foram então "pescados" por Tony Stratton-Smith, "boss" da Famous Charisma Label que, logo em Outubro de 1970, faz editar "Trespass", um dos embriões do futuro rock sinfónico com apenas seis temas. Depois de o disco ter sido lançado, Anthony Phillips e John Mayhew "desertaram", entrando para os seus lugares Steve Hackett e Phil Collins.

Foi já com esta nova formação que o grupo cristalizou a sua imagem e o seu estilo, que incluía uma tendência clara para a megalomania e para o dramatismo. "Nursery Crime", álbum de 1971, sintetizava todas essas marcas.

Em 1972, com o primeiro concerto fora de Inglaterra (em Bruxelas) os Genesis começaram a ser notados graças ao vocalista Peter Gabriel, cujas interpretações ficavam sempre a dever imenso ao teatro. Em Outubro deste mesmo ano foi editado "Foxtrot" (gravado nos estúdios da Island e com a produção de David Hitchcock), o primeiro álbum dos Genesis a quebrar a barreira do Top 20 britânico. Este álbum apurava também o sentido de sinfonismo ao exibir no lado 2 uma faixa que ocupava quase todo o espaço disponível: "Supper’s Ready" tinha 23 minutos de duração.

1973 é o ano da primeira digressão inglesa que serviu aliás para compilar material para o álbum "Genesis Live" que, vendido em "budget price", haveria de assegurar a entrada no Top 10. Nesse mesmo ano, os Genesis vão para o estúdio e gravam "Selling England by the Pound" (produção do grupo e de John Burns). Entretanto a América começava a entusiasmar-se com os Genesis, que consolidaram aí o seu estatuto com a boa "performance" comercial de "The Lamb Lies Down on Broadway" (que entrou para o Top 50 da "Billboard"), um duplo álbum conceptual que tinha a colaboração de Brian Eno.

A tendência para os grandes espectáculos de luz, cor e imagem é definida na digressão de lançamento desse álbum que passou na época por Portugal, em Cascais.

No final de Maio de 1975 a "quase-ópera" "The Lamb Lies Down on Broadway" já havia sido apresentada mais de 100 vezes ao vivo. Talvez por isso, em Agosto desse mesmo ano, Peter Gabriel anuncia a sua saída. Apesar do "abalo", o grupo anuncia que já se encontra a trabalhar num novo álbum e que Phil Collins passa a ser o novo vocalista.