VIANNA DA MOTTA

UM VALOR ABSOLUTO NUMA RELATIVIDADE DE CULTURAS (In Colóquio, revista de Artes e Letras, de Julho de 1962, por João de Freitas Branco).

Lisboa, por volta de 1880.Serão familiar, com alguns amigos convidados. Atracção especial, ouvir o filho do sr. José António da Motta e da srª D. Inês Joaquina de Almeida Vianna da Motta. Tem uns doze anos de idade, sabe tocar lindamente piano e já compôs algumas obras como a fantasia "O Acrobata", a marcha "Victória !!", a valsa "Amor Filial", dedicada à sua "Querida Maman", a polka-mazurka "Singela", a grande quadrilha de contradanças "Praia das Conchas", o galope "Gaieté", um pot-pourri sobre "O Trovador", para flauta, violino e piano. Espera-se que, durante o serão, dê a ouvir as suas melhores composições, talvez as que estão publicadas – a valsa "As Férias" (op. 14), a polka "A Infância" ou a fantasia original Armas e Letras.

Também hoje é possível um serão assim, com iluminação eléctrica, diferentes trajos das senhoras e dos cavalheiros, outras fórmulas de tratamento. Mas, nos anos que decorreram desde então, desvaneceu-se a viabilidade de uma semelhante reunião ser tomada a sério por pessoas musicalmente cultivadas. Esta a grande diferença, depois de uma evolução para a qual veio a contribuir muito esse mesmo pianista e compositor de doze anos, que escrevia quadrilhas de contradanças e pots-pourris sobre "O Trovador".

Um conjunto de circunstâncias incrivelmente felizes preparou esse contributo de um homem para o desenvolvimento e a elevação da arte dos sons no seu país.

José António da Motta, que residia em S. Tomé, teve que fixar-se na Metrópole por motivos de saúde. Estabelece-se em Colares, e acontece ser nessa altura, em 1874, que a humidade obriga o coadjutor da freguesia a retirar o harmónio da igreja. O instrumento vai para casa do mesmo José António da Motta e serve ao seu filho mais velho para confirmar exuberantemente a vocação para a música. Alguém aconselha a apresentação da criança a El-Rei D. Fernando e à Condessa d’Edla.

O acolhimento é protector, e sensata a orientação. O pequeno José Viana da Motta irá aperfeiçoar-se no estrangeiro, mas só depois de feitos os primeiros estudos sistemáticos.

José António da Motta transfere-se para Lisboa em Janeiro de 1875, para que seu filho comece a frequentar o Real Conservatório no mês seguinte. Em Agosto, passa os exames de 1º e 2º anos de rudimentos, e o de 1º ano de piano, este último com 13 valores. Em 1876, 3º ano de rudimentos e 2º de piano, com 16 valores.

"Os examinadores ficaram absortos", disse o cronista do Diário Ilustrado.

Os estudos prosseguem da melhor maneira. Em 1881 termina o curso de piano, "com louvor". Peça à sua escolha, no exame final, a "Sonata Appassionata". Nesse mesmo ano participa pela primeira vez num concerto público e é ouvido pela pianista Sofia Menter, que indica, para formação complementar, o Conservatório recentemente fundado pelos irmãos Scharwenka em Berlim.

Em 1882 parte, com seu pai, para a Alemanha e matricula-se naquele Conservatório. No ano seguinte toca o "Concertstück", de Weber, com orquestra. Causa-lhe espanto a importância que dão em Berlim à notícia da morte de Wagner. Em 1884 ouve Brahms tocar o seu concerto em Ré Menor e dirigir a sua 3ª Sinfonia, e assiste pela primeira vez a um espectáculo sinfónico regido por Hans von Bülow.

Assim como as medidas de espaço e de tempo dependem do sistema de referência, assim também os acontecimentos artísticos se não medem pelos mesmos valores em relação a diferentes coordenadas. Há uma relatividade das culturas em movimento. E o movimento cultural de Berlim era vertiginoso em comparação com o de Lisboa. Deve ter sido enorme a surpresa de José Viana da Motta ante os conceitos de valor que na capital alemã se manifestavam em torno dos nomes de um Wagner, de um Brahms, de um intérprete como Hans von Bülow.

O choque poderia ter sido excessivo, funestos os resultados. Valeram-lhe, além da inteligência, da ânsia de saber e da aplicação, o apoio régio, que lhe facilitou a entrada nos melhores meios intelectuais e artísticos, e a própria juventude, sempre favorável à verdadeira assimilação.

A cultura germânica tornou-se no seu sistema de referência.

Em 1885 apresenta-se com a Orquestra Filarmónica de Berlim. Sob a influência do seu novo mestre Karl Schäffer faz-se adepto do wagnerismo. No Verão recebe lições de Liszt, em Weimar. Dois anos depois, falecido Liszt, segue o conselho de Schäffer e matricula-se no curso de piano de Hans von Bülow, em Frankfurt. Em 1888 visita o casal Wesendonck, sem fazer ideia do papel que representara na vida e na obra do seu ídolo Richard Wagner.Entretanto, o pianista de vinte anos, vai realizando carreira. Desloca-se a outros países – Dinamarca, Finlândia, Rússia – e colabora com celebridades, entre as quais o violinista Sarasate.

Duas grandes impressões lhe estão reservadas para 1889.Ouve pela primeira vez a "9ª Sinfonia" de Beethoven, sob a direcção de von Bülow, e assiste ao festival de Bayreuth.

Prossegue a carreira de pianista.

De novo com a Filarmónica de Berlim, interpreta o "5º Concerto" de Beethoven.

Em 1891 tem a revelação de Ferruccio Busoni, num concerto de despedida. Busoni há-de ser um dos seus melhores amigos e admiradores, mas só o conhecerá pessoalmente no ano seguinte nos Estados Unidos da América.

Em 1893 vem a Portugal e apresenta-se em público.

No Teatro da Trindade, toca a solo e acompanhado pela Orquestra 24 de Julho, "composta de 60 professores", sob a direcção de Victor Hussla.

No programa, entre outras obras, o "5º Concerto", de Beethoven, a "Balada em Fá Menor", de Chopin, e, de sua autoria, "Serenade" e "Marcha portuguesa dedicada a S. M. El-Rei D. Carlos I".

O instrumento em que se faz ouvir é um "piano de Erard obsequiosamente cedido pelo Exm.º Sr. A. Rey Colaço".

A actividade do concertista continua a desenvolver-se no plano internacional, não obstante o cada vez mais absorvente trabalho pedagógico em Berlim. As suas interpretações causam a admiração do meio musical de Paris, onde, em 1895, Mme. Strauss, filha de Halévy e viúva de Bizet, dá uma "soirée em honra do eminente pianista português Vianna da Motta", que interpreta algumas composições do autor da "Carmen". O serão deve ter feito sua diferença daqueles em que o menino-prodígio revelava os seus últimos galopes e marchas.

Em 1905, Ysaye, apresenta-se no Carnegie Hall com o seu acompanhador habitual, para as pequenas peças.

Mas os dizeres da capa do programa chamam a atenção para o número principal: Kreutzer Sonata with Da Motta.

No mesmo ano é nomeado "pianista da corte" pelo duque de Coburg-Gotha. Em 1907 Risler indica o seu nome, em primeiro lugar, para provimento da vaga de professor da classe de virtuosidade do Conservatório de Genebra, mas Vianna da Motta declina o convite formal do director, para não prejudicar a sua carreira de concertista. No entanto, acaba por exercer o cargo, cerca de 10 anos mais tarde, porque a guerra reduz ao mínimo as possibilidades de digressões artísticas internacionais, e porque a vida profissional se torna também cada vez mais difícil dentro da Alemanha.

A quebra da carreira teve talvez influência em que Vianna da Motta aproveitasse a oportunidade de assumir a direcção do Conservatório de Lisboa. Durante as três décadas em que a sua residência-base fora em Berlim, viera reiteradamente a Portugal. Mas, quando veio em definitivo, decerto voltou a sentir os efeitos da relatividade das culturas, efeitos que muitas vezes lhe causaram estranheza e que não raro o fizeram vítima de injustiças.

Realizou tudo o que pôde, no sentido de fazer o meio musical português acompanhar o movimento europeu, que tão bem conhecia, não só através da importante reforma do Conservatório, senão também como professor, musicógrafo e chefe de orquestra. E como pianista, evidentemente.

Acrescente-se que, ainda no oitocentos, Vianna da Motta, o compositor, ensaiara, uma renovação e nacionalização da música portuguesa, com páginas tão relevantes como as da "Sinfonia À Pátria".

Foram poucos os que se deram conta do significado e, do alcance das suas lições, dos seus exemplos. A cultura artística, literária e filosófica que conquistara não contribuia para a geral compreensão da grandeza do músico, antes a prejudicava. Mas quando, em 1927, volta a apresentar-se em público na Alemanha, no enquadramento das comemorações do centenário da morte do Mestre de Bonn, a crítica saúda na sua interpretação da "Sonata op. 111" um caso, já então raríssimo, de magistral assimilação e comunicação da verdadeira mensagem beethoveniana.

Houve um fundo de superior resignação na atitude de Vianna da Motta, nos últimos anos de vida. Mas nunca o vimos manifestar-se de algum modo desiludido do seu mundo de conhecimentos, de relacionações, de ideias. Jamais disse não a pena alguma actuação prática ou preparação intelectual, desde que os objectivos fossem daqueles que um Goethe e um Schiller, ou, pessoalmente, um Liszt e um Hans von Büllow lhe haviam ensinado a demandar.

Preparação intelectual, dissemos. Uma vez que o visitámos, nas vésperas do seu último concerto com orquestra, notámos que estava relendo o Fausto. Explicou que se preparava para a audição da sinfonia que a peça de Goethe inspirara a Liszt e que estava prevista para esse mesmo concerto. Manteve, pois, o hábito que muito antes, ainda na Alemanha, lamentara estar a perder-se.

Recordara então que, nos seus tempos de juventude, os preparativos para assistir a um espectáculo musical se faziam com o mesmo alvoroço e o mesmo cuidado com que a adolescente se arranja para o baile.

A preparação metódica, inteligente, profunda e ampla de tudo o que se propunha fazer, eis um valor absoluto da figura de José Vianna da Motta. O valor de uma superior seriedade – de uma atitude que se mantém actual como invariante modelo, dentro da relatividade das culturas. Dir-se-ia que o último troço da sua vida foi ainda de preparação – para a morte.

Não porque tenha modificado essa atitude de verdadeiro intelectual e artista, mas precisamente porque a manteve até ao fim.