SENSATEZ

O realismo das mulheres face aos aspectos materiais da vida é bem conhecido e não faz delas piores pessoas, mas apenas pessoas mais sensatas.

 

"Risquei Viena da minha vida, tornei-a definitivamente impossível. Pensei, já não mereço esta cidade .E foi em Viena que ouvi pela primeira vez uma peça de Mendelssohn Bartholdy".

Thomas Bernhard

 

ENTÃO ATÉ À PRÓXIMA

É bem provável que uma história valha bem pouco. De uma semana para a outra, de um dia para o outro, as notícias desvalorizam-se, devoradas por outras que deixam atrás de si um rasto de cinza, de personagens que terminaram rápidamente a sua existência, esmagados pela actualidade que exige sempre mais informação pronta a ser consumida.

O melhor que o jornalismo pode proporcionar: A memória.

 

A TODOS OS QUE AQUI SE RECONHECERÃO

O homem não sobrevive sem um inimigo; Aliás não se mede a grandeza de um homem pelo número dos seus inimigos ?

Eu não sou civilizado – creio que jamais o serei. Por vezes posso parecê-lo por algum tempo – posso mudar, engraxar os sapatos, escrever uma carta mas, se no primeiro semáforo um carro me tentar passar à frente, o bárbaro desperta, eriça-se, gesticula e pronuncia palavras que a minha mãe – como diria o outro – terminantemente me proíbe de aqui dizer. E o pior, é que me faz sentir bem e não estou sózinho nisto; no carro ao lado observo o meu novo inimigo – sem dúvida perante uma súbita subida de adrenalina – deseja francamente pôr-me as mãos em cima.

O homem é um guerreiro que se auto-adora.

Nada a fazer, o homem tem necessidade de travar as suas próprias batalhas e encontrar os seus moinhos de vento. O patrão é, por definição – uma autêntica b…, o árbrito de futebol – como toda a gente sabe – tem tendências homossexuais e os políticos são todos – é claro – uns vermes repugnantes.

O homem necessita de um inimigo para existir.

A nível físico o homem sonha com lutas e filmes como um Rocky ou o Karate Kid tornam-se sempre uma escolha mais acertada para um bom serão em frente à televisão – melhor do que um "esperando Godot" ou "Sonata de Outono". Há como uma fascinação genética em observar dois homens à luta – desportivamente ou não – uma vontade de fazer parte dela, um frio no estômago que nos domina e nos faz tomar consciência que ainda nos restam alguns abdominais. Se o homem fosse um lobo, desejaria ser o chefe da alcateia – o macho dominante. É preciso fazer qualquer coisa com esse excesso de energia, testosterona, stress e tensões e…. o yoga não é o forte de todos. Mas quem se queixa ?

Ela, em todo o caso não.

Oficialmente, ela quer que eu seja cavalheiro, romântico e seguro mas adora as minhas actuações no jogo da besta de duas costas. Um pouco de bestialidade nunca fez mal a ninguém.

Todas as mulheres nos dirão, dentro de cada homem há um animal adormecido, com um olho sempre aberto …

O único pequeno "senão", e para nosso grande desgosto, é que talvez não sejamos bem isso: nem campeões europeus de Kickboxing, nem predadores sexuais, nem implacáveis sedutores de top-models.

Esta frustração, esta tensão interior, faz-nos, contudo, avançar, dá-nos vontade de impressionar, de espantar todos à nossa volta, de sermos apenas um pouco mais daquilo que somos.

O meu único verdadeiro inimigo sou eu próprio.

(NICKEL ENNEMI)

 

PINTURAS DE GUERRA

Os autores de alguns dos dez mil retratos que impunham a presença de Saddam Hussein nas ruas do Iraque sobrevivem hoje a pintar os invasores americanos e as respectivas famílias. Os antigos retratistas oficiais do ditador não têm mãos a medir com as encomendas dos soldados de Bush.

Nem tudo são desgraças em Bagdad.

 

O BELO TIRA-BORBOTOS

Na hierarquia natural dos electrodomésticos, esquecemos normalmente um pequeno objecto que tem vindo a marcar pontos no panorama doméstico. Falamos do tira-borbotos. Apesar da sua aparência franzina, esta ferramenta quotidiana tem propriedades absolutamente imbatíveis. Mais do que a eficácia a neutralizar borbotos, devemos analisar a dimensão psicanalítica, freudiana, do mesmo, ou não fossem a depressão e demais doenças nervosas o novo cancro do século XXI. Por outras palavras: o tira-borbotos restabelece uma harmonia que julgávamos perdida. No mundo frenético em que nos movemos, o decisivo é munirmo-nos de um bom tira-borbotos, o que até representa um investimento baixo. E fácilmente rentabilizável; com uma centena de aplicações (e as pilhas são de 1,5 volts) percebemos que evitámos a morte daquele pullover ou casaco que comprámos há sete anos no Paga Pouco ou no Harrod’s.

 

DE QUE É QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE CULTURA ?

Cultura: tarefa hercúlea de proporções olímpicas.

Goebbels sacava da pistola quando de tal ouvia falar. Woody Allen escreveu um livro "Para acabar de vez com a cultura". Cavaco Silva nomeou Santana Lopes como Secretário de Estado da dita, o que é uma forma bem mais eficaz do que escrever um livro para acabar com ela. Nas escolas, pedagogos com créditos firmados, sabe-se lá por quem, ignoram os clássicos e estudam o regulamento do Big Brother. A ideia veiculada para a sociedade é a de os criadores artísticos vivem todos "à conta" do Estado e, nas horas vagas, vão fazendo umas coisas incompreensíveis, ou melhor, só compreensíveis se estiverem a "gozar" connosco.

A ignorância e a cupidez são premiadas nas televisões. Minto, há um saber que é premiado, que é conhecer todas as figuras e marcas do nosso "jet pimba". O que está na moda são programas sobre coisa nenhuma, em que umas personalidades (? ..?) com copos de champanhe colados à mão e cachucho a chocalhar, debitam umas inanidades sobre gente, que faz rigorosamente o mesmo em qualquer festa. Tudo num clima de grandes sorrisos onde se detecta uma insuficiência mental que noutros tempos mereceria análise e, eventualmente, tratamento, não fosse dar-se o caso de já não haver cura, tal a intensidade da doença.

Falar de cultura, de facto, pode ser perigoso, é subversivo.

E, afinal, de que é que falamos quando falamos de cultura ? De uns quantos intelectuais ininteligíveis (inatingíveis ?) a discorrer sobre uma "instalação" na Culturgest ? Da retórica universitária ? Do lixo museográfico de erudição não aplicável em coisa nenhuma ?

Sim, de tudo isso e também do resto, das inanidades e dos vazios. Porque quando falamos de cultura falamos de nós, dos nossos valores, dos nossos saberes, da moral dos comportamentos, da ética, enfim, da vida. Falamos das especificidades, das tradições e dos costumes que fazem, dos portugueses, um povo com individualidade própria. E, claro, falam os saberes que tornam compreensível a sociedade em que nos encontramos inseridos. E essa sociedade será tanto mais compreensível quanto maior for esse conjunto de saberes. Falamos dessa matéria que torna possível um maior conhecimento de nós próprios.

E se achamos que todo esse saber não tem correspondência directa com a nossa vida, então ainda não realizámos a magia de, às tantas, conseguirmos participar no diálogo da civilização e descobrirmos como isso é importante no futuro.

UM PAÍS NÃO SE FAZ SÓ DE POETAS. NEM DE CIENTISTAS; VALHA A VERDADE QUE A POESIA É NECESSÁRIA AO SONHO E SEM SONHO NÃO HÁ AVANÇO.

CULTURA CIENTÍFICA VERSUS CULTURA LITERÁRIA (ou cultura das artes do espectáculo)

Em poucas palavras, o problema resume-se a isto: quem não leu ou nem sequer ouviu falar do último livro de José Saramago (pode ser outro escritor relevante e popular qualquer) é un ignorante da pior espécie. Mas quem não faz ideia de qual seja a última grande descoberta no campo da biotecnologia, ou nem sequer se lembra do Teorema de Pitágoras, é apenas alguém com má memória e não muito dado a essas bizarrices de investigação científica. Aliás, científica só a ficção e de autores consagrados.

Esta dualidade na análise do que é ignorância origina uma valorização desigual dos ramos do conhecimento dos ramos do conhecimento. Poderia não vir mal ao mundo que assim fosse, até porque os cientistas são gente que se dá mal, por norma, com os holofotes da fama, são discretos e prezam a relativa obscuridade em que desenvolvem o seu trabalho.

A obscuridade em que os cientistas deste país vivem e desenvolvem trabalho não favorece o desenvolvimento da sua actividade. Pelo menos, por duas ordens de razões. Em primeiro lugar porque as actividades científicas são em larga medida financiadas pelo Estado, pelo que é obrigação democrática os cidadão saberem onde é gasto o dinheiro dos impostos. O Estado tem de prestar contas sobre onde gasta o dinheiro e há uma avaliação a fazer das opções tomadas: em segundo lugar, só se tornando pública a actividade científica poderá crescer, não só porque haverá mais gente interessada em fazê-la, mas também porque a pressão social para que ela se desenvolva é maior.

Encontrar o tom e a forma de tornar interessante uma matéria científica é difícil e parece não haver o necessário esforço para o fazer. Como a ignorância científica é vasta e profunda, a comunicação fica mais difícil, porque até os conceitos básicos não são perceptíveis.

Por outro lado, como os jornalistas, que medeiam a mensagem entre o cientista emissor e o público receptor, também não fazem a mínima ideia do que seja um protão, evitam ter de mostrar essa ignorância, pelo que fazem de conta que tal actividade não existe.

E é assim que chegamos ao ponto de os cientistas só falarem uns com os outros e não com a sociedade. É verdade que há uma outra razão para a relevância dada à cultura das artes do espectáculo. É que estas geram receitas directas pelo seu consumo. Pagamos bilhetes nos cinemas, nos teatros e nos museus. Gastamos fortunas nas livrarias, em cd’s e em dvd’s. Compramos equipamentos caros de som e imagem para usufruir desses bens culturais em casa.

A ciência não se consome no momento em que é trabalhada e talvez isso faça toda a diferença.

Um país não se faz só de poetas.

Nem de cientistas.

Valha a verdade, que a poesia é necessária ao sonho e sem sonho não há avanço.

 

O BOI LUSITANO

(antítese absoluta do código da estrada e do bom senso, animal supremo, certificado, autenticado e carimbado)

É ao automóvel que o boi lusitano revela toda a sua raça selvagem e comportamento primitivo, é aí que se eleva a boi global, comunitário e unionista. Especialmente em Dezembro, altura em que se revela mais perigoso para os pobres portugueses que constituem os restantes noventa e muito por cento do "parque automobilista" nacional.

As auto-estradas transformam-se mais uma vez na arena previlegiada para as suas ferozes arremetidas.

Uma vintena de quilómetros sim, uma vintena não, lá pára a fila, em monstruoso engarrafamento, de onde se sai, para logo cair no seguinte.

"Choque em cadeia" ou "veículo avariado", explicam as telefonias.

Traduzida em termos de condução prática, a notícia significa apenas que um dos nossos façanhudos bois se colou ao carro da frente e que, à primeira travagem inesperada deste último, lhe deu uma valente marrada, a qual, por sua vez, originou que vários automóveis se enfaixassem uns nos outros. Tão simples quanto isto. E nem de maldade se trata. Apenas de ignorância. A ignorância só de alguns mas que todos pagam, automobilistas ou não.