O VINHO É QUE EDUCA …
Não sabe o que pedir quando sai para tomar um copo ? Desdenha dos estrangeiros que bebem vinho fora das refeições ?
É dos que pensa que tinto só à mesa e só com carne. Pois engana-se. Aprenda que o que está a dar é pedir um copo de um bom tinto, de preferência nacional, num happy hour e bebido com moderação. Mas atenção: o que está hot é o tinto. O que está not é o vinho branco.
Por enquanto, claro, porque nisto de modas, nunca se sabe …
FILHOS DO INIMIGO
Durante a segunda guerra mundial, um dos períodos mais negros da história da Noruega, os soldados alemães que ocuparam o país foram incentivados a manter relações sexuais com mulheres norueguesas. O programa de desenvolvimento da raça ariana, concebido por Himmler, assim o exigia. Hoje, seis décadas depois, mais de uma centena de descendentes dessas relações, os Lebensborn Children ou "Crianças da Guerra", como lhes chamam, colocaram o estado norueguês no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, porque a nação norueguesa lhes deve uma compensação por esse seu passado de sofrimento e terror.
O programa Lebensborn – em tradução livre significa Primavera da Vida – foi criado na Alemanha, em 1935, por Heinrich Himmler, comandante supremo das SS.O objectivo era cuidar das mães solteiras que tinham filhos com "elevado valor racial". Em Março de 1941, a Noruega é o primeiro país a adoptar este programa for a da Alemanha. E havia, para tal, uma razão muito concreta: como a maioria das mulheres era
nórdica – o que na terminologia nazi significava os mais puros arianos – as norueguesas eram demasiado valiosas para o regime de Hitler. Desse modo, os soldados alemães – e foram cerca de quatrocentos mil os que passaram pela Noruega entre 1941 e 1945 – eram incentivados a ter relações sexuais com as mulheres que lhes estivessem mais próximas. E para apoiar as futuras mães em todo o processo, foram criados vários centros Lebensborn. Os custos do nascimento, cuidados médicos, roupas para as crianças, tudo ficava a cargo do III Reich.
Após terem ganho várias etapas judiciais, a 16 de Dezembro de 2002, estes "filhos da guerra" acabaram por perder o processo no Supremo Tribunal de Justiça norueguês, que o considerou prescrito, justificando que tinham passado já mais de trinta anos sobre os factos.
Depois da guerra, apareceram na imprensa norueguesa vários artigos, a maioria a defender a inferioridade das crianças filhas do "inimigo" e onde aquelas mães, denominadas de "mulheres alemãs" eram naturalmente deficientes.
QUEM NOS VIU E QUEM NOS VÊ …
Os festejos populares resistem na capital. Eles são o ponto alto da saison lisboeta, mas muita coisa vai mudando. As sardinhas assadas estão cada vez mais caras, as sangrias dão lugar às caipirinhas e às caipiroscas e as cançonetas do tempo da Outra Senhora cedem o tom ao "forrô" e ao "kizomba", tal é a influência de brasileiros e africanos entre nós. As crianças não andam de mão estendida a pedir "Um tostãozinho pró Santo António", gesto inocente que escandaliza muito turista ignorante que parte na convicção de que a nossa capital é um vespeiro de mendicidade infantil só igualável na Índia ou na América Latina.
Em suma, estamos a ficar mais cosmopolitas. Ou melhor: menos provincianos. Não que certa sociedade espelhada na denominada imprensa-rosa nos force a pensar assim.
As páginas dedicadas às senhoras vestidas por estilistas emergentes parecem, por vezes, mais uma compilação de guarda-roupas inspirados na revista à portuguesa, com laivos de escola de samba e um toque subtil de fatiotas de marchas populares. Ao desfile de horror, falta apenas, uma ou outra senhora com um simples vestido preto, sublimação do chique e "que nunca se compromete".
Ironia à parte, Lisboa está a renegar o provincianismo.
NOITADAS
"I’m sorry, but lamento …"
Na opinião da maioria dos porteiros (seguranças ?) de bares e discotecas, eis as cinco boas razões para que lhe seja vedada a entrada:
1ª Você tem bom aspecto – no geral, eles não se identificam com as pessoas fora do seu próprio meio.
Duvidam de quem tem ar civilizado.
2ª Está bem vestido – como você não tem ar de pelintra do Barreiro ou de "menino bem" do Bairro da Encarnação, eles não são capazes de reconhecer outro género.
3ª Está acompanhado por uma mulher bonita – esta proibição só é válida em lugares gays.
4ª Está acompanhado por um homem vistoso – esta proibição só é válida em lugares que eles acham que não são gays.
5ª Tem ar de quem está disposto a consumir – está tudo dito.
AMORES URBANOS
O COSMOPOLITISMO trouxe-nos a solidão no amor.
Nunca conhecemos tanta gente desejável e nunca nos sentimos tão sós.
Os Homens e as Mulheres cosmopolitas podem ser diferentes em muitas coisas, mas há uma maçã do desejo que comem em conjunto: ambos querem ter 15 minutos de glória. Seja no trabalho, seja na discoteca, seja na televisão. Seja, é claro, no amor. Se errar é humano, e nas sociedades modernas todos estamos proibidos de errar, só a glória parece imune ao erro, e assim procuramo-la desesperadamente. É por isso que a superficialidade se tornou a lingua franca de homens e mulheres.
Fizeram-nos crer que a modernidade e o cosmopolitismo rimam com velocidade. E que o homem e a mulher moderna são protótipos carregados de telemóveis, computadores portáteis, que estão sempre a deslocar e que costumam encontrar os namorados e as namoradas nos aeroportos. Porque enquanto um está a chegar, o outro está a partir.
O "fast sex" tornou-se o acessório mais utilizado da modernidade. Já não há tempo para conquistar a mulher moderna, porque ela já não tem tempo para o "flirt". O desejo é só uma imagem fugaz, uma "frame" de um filme. Grandes paixões já só existem nas obras de Hollywood. Onde há tempo para chegar a casa com um ramo de flores atrás das costas para se fazer uma surpresa e passar um fim de tarde, de mãos dadas, a olhar para o sol que desaparece no horizonte ?
O cosmopolitismo trouxe-nos a solidão no amor. A beleza exterior é o papel celofane que esconde o grito lancinante que há dentro de nós. As mensagens de telemóvel tornaram-se frases de amor tolas, porque não têm o agradável prazer da gaguez que sentíamos quando tentávamos dizer algo a alguém por quem nos tínhamos apaixonado à primeira vista. O amor é hoje uma cantora decadente num bar escuro. Ninguém olha para ela, só escutamos o seu sussurro.
A beleza tornou-se o adereço favorito das grandes cidades. Entre tanto betão, só o charme das caras, dos corpos ou das roupas salva a paisagem. Talvez por isso as palavras se tenham tornado tão indispensáveis.
O amor tornou-se apenas mais um item no nosso "Palm top", algo que faz parte do currículo. Como artistas que contam todos os seus segredos amorosos nas capas das revistas, talvez porque não têm mais nada para contar. E só têm isso para compartilhar.
O amor cosmopolita é triste e frágil, e todos pensamos que somos senhores do mundo e de todas as paixões.
Se o amor, antigamente, era um galope do coração sem rédeas, hoje a vida é uma correria sem sentido.
PARA ALÉM DO QUE OS OLHOS VÊEM
Um escritor de renome (Huberto Rohden), ridicularizou os homens que só querem crer no que vêem, com duas pinceladas literárias magistrais, em estilo de alegoria a que deu o sugestivo título de "Filósofos submarinos".
Imaginou ele duas ostras, nas profundidades de um oceano, em conversa animada, sobre "coisas do outro mundo".
Uma que recebera da parte de um peixe, culto e viajado, revelações espantosas do que havia para além do elemento aquático. Outra que, fechada na estreiteza de horizontes da sua concha, sistemáticamente se recusava a admitir que, para além da água salgada, alguma coisa mais pudesse existir.
Em vão lhe referia a primeira que o tal peixe, capturado por uma geringonça metálica, chegara a ser um dia içado para fora da água e que vira "criaturas do outro mundo": Homens que trocavam ideias entre si. Seres estranhos que se moviam por duas pernas e que morriam, se caíssem para dentro da água salgada. Outros seres que se davam ao luxo de terem quatro pernas ou mesmo seis. E uma gigantesca roda de fogo que enchia de tanta luz e de tanto calor esse maravilhoso mundo, como nenhum habitante subaquático poderia sequer imaginar.
Mas o escândalo da céptica interlocutora foi de tal ordem, perante tão inacreditáveis afirmações, que ela convocou uma assembleia geral de todos os moluscos do oceano para condenar quem acreditasse nas novas teorias postas a correr por aquele peixe idiota.
E assim terminava o documento que para o efeito se lavrou:
"Considerando que somos as criaturas de mais vastos horizontes, decretamos e promulgamos, em virtude do poder que nos faculta o facto fundamental do nosso império, que fora de nós e das nossas profundezas, nada existe de real. Quem admite o contrário é um atrasado e perde, ipso facto, os foros de cidadão neptuniano".
Pobres ostras das obscuras profundidades oceânicas !
Se lhes fosse dado contemplar por um instante a sinfonia de luz, de cor e de som que vai por sobre a terra, numa manhã primaveril, e se pudessem vislumbrar a vastidão dos espaços siderais, onde se afundam e se perdem os nossos olhos deslumbrados, bem ridículo sentiriam o orgulho da sua inteligência e bem insignificante a dimensão do seu mundo aquático.
Pois, também à superfície da terra há ostras humanas que não querem acreditar senão no que os olhos vêem e no que as mãos podem tocar, ainda que as exigências do mais elementar raciocínio, para não falar já nos dados positivos da Fé, proclamem a existência de realidades maravilhosas para além do mundo material que ora pisamos.
Tu não duvidas de que Einstein foi dos maiores sábios de todos os tempos. Pois na sofreguidão com que procurou o segredo do Universo, nunca pôs em dúvida a existência de um Ser Superior, deixando cair dos lábios expressões inequívocas como estas:
"Creio no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia da criação …".
"A minha religião consiste numa humilde admiração pelo Espírito Superior e sem limites que se revela nos mínimos pormenores que sempre vamos captando com os nossos espíritos diminutos e frágeis …".
"Esta profunda convicção sentimental da presença de uma Inteligência poderosa e superior que se revela no incompreensível universo.
Tal é a minha ideia de Deus …".
Aqui chegou Einstein, cuja autoridade científica ninguém se atreveria a contestar.
Será possível chegar mais longe, a respeito de Deus, pelos nossos próprios meios ?
O grande sábio da teoria da relatividade recusou aceitar que Deus se tenha debruçado sobre os homens e se lhes tenha revelado:
"Eu creio em Deus … mas não num Deus pessoal que se interesse pelos problemas do homem".
Ele não compreendia, talvez, como Deus pudesse amar os homens até esse ponto.
Fraca ideia de Deus ? Ou fraca ideia do homem ?
O problema constituiu, no entanto, para ele grave enigma, o que claramente expressou desta maneira:
"Eu não posso admitir que Deus ande a brincar aos dados com o cosmos".
Ficou, pois, em suspenso e em aberto, para ele, esse aspecto do problema, porque transcende os limites da ciência dentro dos quais o grande sábio se confinou, pois parece que não chegou a abrir-se aos clarões da Fé.
O CAVALO DE ÁTILA
O seu nome foi Othar, e dele dizia-se que "por onde passava não voltava a crescer a erva".
Na realidade, este cavalo simboliza duas características. Por um lado, reflecte o ardor guerreiro, a suposta crueldade e a imbatibilidade do seu amo, o rei dos Hunos. Átila, devido às suas devastações e pilhagens, mereceu o epíteto de "o flagelo de Deus".
Ordenou a morte do seu irmão Bleda em 445, para reinar sózinho na planície húngara de Panónia, e no império que mais tarde estendeu no Oriente, ao invadir as fronteiras do Império Romano: atravessou o Reno, chegou junto de Paris e, em 452, atingiu as portas de Roma.
Por outro lado, o cavalo simboliza a importância bélica e o poderio da raça equina asiática, da qual todos os povos bárbaros nómadas se serviam.
POR CHARLES DUCHAUSSOIS EM "VIAGEM AO MUNDO DA DROGA"
UM ÚLTIMO EXTRACTO DESTE CADERNO DE DIVAGAÇÕES PRODUZIDAS PELA METEDRINE (JÁ NA PRISÃO):
"Balança
Juízo final
Equilíbrio
Equivalência dos contrastes
Trocas materiais
Noção dos valores
Simples medida
Fragilidade de uma coisa ou de um perigo
Justeza de uma coisa estabelecida
Influência faraónica no além
Verdade horizontal
Um a favor ou contra o outro
Flagrante no passado mas muito mais influente no presente, diferente de um valor humano ao seu ter
Aparente força indubitável
Indecisão impossível
Senhora na arte de cortar
Neutralidade indiscutível
Direito comercial
Justiça – direito de introdução privado. Alibi moral condenatório
Desculpa priva masochista ou sádica – Consciência social.
Por extensão: Movimento
Contra-oscilação
Sempre igual mas movediça distância de dois pontos sobre uma linha horizontal de base e de paragem
(Razão não obrigatória da sua razão de ser) estando estes dois pontos ligados a igual distância lógica, simétrica mas não obrigatório à parte duas linhas movediças de cima para baixo e de B para C, sempre verticais a uma segunda linha horizontal, nova e não-utilização (prova visual mas não característica de integridade) ou em utilização (prova tangível mas sempre únicamente visual e simétricamente falando.ógica) à primeira linha horizontal de base mas contìnuamente em movimento sobre o ponto fixo do seu exacto meio: meio primordial pois é urgente suporte ponto de coordenação e de equilíbrio de todo o aparelho deste ponto X.Duas linhas sobrepostas se elevarão exactamente em ângulo recto (90º) com o seu suporte horizontal. Uma invariávelmente fixa, simples ponto de referência, geralmente suporte de todo o edifício, pois ordináriamente transformada em ângulo rectangular ao pequeno lado de baixo talhado em bisel (aresta para cima) serve de ponto de queda e de equilíbrio no meio exacto do próprio suporte, horizontal das suas duas ponteiras pendentes e verticais; segurando estas e ligando, nas suas extremidades, geralmente por 3 ou 4 fios móveis, dois pratos de pesos iguais, actuando por sua vez um de lado, unitáriamente conhecido e estabelecido quer por simples peso devidamente classificado e verificado quer mais estúpidamente ainda por todos os valores em reserva".
A continuação deste texto desapareceu, porque não pára aqui.
Recordo vagamente a sua composição e parece-me que o escrevi porque tinha "descoberto" a balança ideal, perfeita, que nunca se engana e era absolutamente necessário, imediatamente, o mais depressa possível, que transcrevesse o seu segredo.
Hoje, quando releio estes textos, dizendo a mim mesmo que fui eu que os escrevi, sinto arrepios ...
QUEM SE LEMBRA DE JEAN RHYS ?
Soletrou até saber de cor todas as letras da dor, da solidão e do abandono. Perdeu o seu país e o dos sonhos, os homens todos por um que não a quis. A morte e a distância arrebataram-lhe os dois filhos, a fome e o frio vergaram-lhe o corpo a indignidades avulsas. Até à loucura. Ficou-lhe intacto o orgulho, condensado no lugar do coração, o gosto amargo do álcool para enganar o da memória e a lucidez atormentada da escrita. Para "ganhar o direito à morte", como ela dizia.
Ella Gwendoleen Rees Williams, filha de Mina Rees Williams, uma crioula branca descendente de um proprietário de escravos, e de um médico galês, nasceu em Roseau, na Dominica (ilha das Antilhas, então conhecidas como West Indies, domínio da coroa britânica), algures entre 1890 e 1894. Por volta dos 17 anos, partiu para Inglaterra com uma irmã do pai.
Em 1912, torna-se amante de Lancelot Hugh Smith.
Em 1917, conhece Jean Lenglet, com quem casa em 1919. Vivem em Paris. O primeiro filho, um menino, morre de pneumonia ao fim de três semanas.
Viajam para Viena e Budapeste. Em 1922, nasce a sua filha Maryvonne, que quando Ella se separa do marido acabará por viver a maior parte do tempo com o pai, na Holanda.
O primeiro livro de Ella/Jean Rhys, uma colectânea de histórias intitulada The Left Bank (parcialmente integrado em Tigers are Better Looking, de 1968) é publicado em 1927. Segue-se-lhe Quartet, em 1928, e, na década de 30, After Leaving Mr. Mackenzie, Voyage in the Dark e Good Morning Midnight.
Em 1934, casa com Leslie Tilden Smith, editor, que morre em 1945.
Dois anos depois, casa com Max Hamer, que morre em 66, no ano da publicação de Wide Sargasso Sea. Daí em diante, vive só, numa casa de campo em Devon. Tigers are Better Looking e Sleep it off Lady, dois livros de contos, saem em 68 e 76. Começa a trabalhar na sua autobiografia. Morre a 14 de Maio de 1979. Smile Please, a autobiografia inacabada, é publicada no mesmo ano.
(Todos os livros mencionados, excepto The Left Bank, foram editados pela Penguin. Em português, existe Vasto Mar de Sargaços, na Difel).
QUERIDA MARIA
(Publicado em Janeiro de 1992 na revista mensal de informação Grande Reportagem)
A Maria é, sem qualquer sombra de dúvida, a melhor revista portuguesa de sempre.Com uma qualidade redactorial conseguida desde os primeiros números e apenas com uma mão-cheia de colaboradores, sábiamente regidos por duas pessoas, atinge uma tiragem invejável de mais de 410 mil exemplares semanais ! Um sucesso de se tirar o chapéu que, muito inteligentemente, aparece nas bancas à segunda-feira, minimizando o negrume que aquele dia provoca em tanta gente. O seu conteúdo é como uma lufada de ar fresco numa tarde de tempestade.
É aqui que se pretende chegar: ao conteúdo. Dizem as más-línguas que a revista é demasiado popularucha, assim só para sopeiras e donas de casa, mas como é frequente vê-la nas mãos de jovens casais estudantes (ou não), tão enamorados e confiantes num futuro promissor cor-de-rosa, é de crer que a Maria abranja uma larga camada da sociedade portuguesa contemporânea.
Aliás, a revista é como um espelho, onde se reflectem os nossos desejos e frustrações, as nossas ansiedades e vícios. Esperamos vivamente que os sociólogos deste país se debrucem sobre este tão grande manancial de informações sobre nós próprios, portugueses e portuguesas, anónimos ou não, para que se constitua uma epopeia moderna onde se volte a cantar o ilustre peito lusitano.
Além de inúmeros e indispensáveis conselhos – como salvar a vida conjugal ou o que fazer quando o desejo sexual entre o casal se apagar – e de testes cheios de ratoeiras, para que cada um de nós saiba como somos na hora do amor ou a atracção sexual que exercemos sobre os outros, há as entrevistas a pessoas com fama ou no seu limiar, que são das coisas que eu mais gosto. Assim, a santa ignorância enriqueceu-se quando se soube que a Miss Portugal 91 se considera bonita mas não estúpida, que o Joaquim Bastinhas recebe cartas atrevidas e que a Isabel Campelo é uma mãe razoável, que sai pouco à noite, não se considerando, no entanto, uma freira, por esse facto.
Os contos da semana sabem a pouco, mas ficam retidos na memória. Nem todos são bons, claro mas alguns são excelentes: "Lágrimas na Almofada" ou "Amor entre Inimigos", casualmente do mesmo autor, deixaram impressões fantásticas. Teria o piloto luso-americano Michael da Silva casado com a jornalista iraquiana ? São os momentos românticos de devaneio, de descompressão, antes duma renovada catadupa de cultura geral. Aprendemos que algumas plantas estimulam o desejo sexual, sem terem inconvenientes para o organismo, como acontece com os afrodisíacos. Deitamos ao lixo as cantáridas que trouxemos de Marrocos e vamos a correr ao supermercado comprar canela, coentros, noz-moscada e aipo.
Aguardam-se os resultados com ansiedade …
Mas a rubrica que está no topo da preferência é o "Diário de Maria". Está a cargo da Drª Rita Sampaio – não sei se é médica, psicóloga ou veterinária, que isto de ter um Dr. antes do nome é pouco esclarecedor -, que, ajudada por "especialistas credenciados", responde às perguntas de leitores e leitoras sobre "problemas de ordem social, sentimental e sexual".
As más-línguas voltam ao ataque: dizem que aquilo é tudo inventado, tal o carácter escabroso de muitas situações. A maior parte delas está directa ou indirectamente relacionada com o sexo e parece que no capítulo da depravação estamos realmente preparados para o desafio europeu.
Os títulos com que são apresentadas as questões são dignos de antologia. As dúvidas de quem para lá escreve são tantas e, geralmente, tão delicadas, que põem à prova, constantemente, a sabedoria e o tacto da Drª Rita Sampaio e dos seus colaboradores. Tenho a certeza de que as perguntas mais simples – "eu sou alta, ele é baixo" ou "eu sou pobre e ela é rica" – merecem a mesma atenção que as outras, muito mais complicadas, cheias de enredo e, por vezes, tão íntimas. É que a resposta tem uma importância decisiva e vai alterar o comportamento de muita gente. Ninguém, com mais juízo, decerto quereria estar na pele dum credenciado da Maria. Como é que se iria sair com problemas e perguntas como estas: "Deverei ter relações anais ?"; "Perco logo a erecção …"; "Tenho vergonha do meu pénis"; "Surpreendi-a a masturbar-se …" ?
Como por exemplo uma Maria de Vila Nova de Famalicão (17 anos), que namora com um rapaz de quem gosta cada vez mais, soube que ele tinha apenas um testículo, tendo a certeza de que é esse o facto que o leva recusar, sistemáticamente, os pedidos (dela) para terem relações sexuais. Duas páginas depois, e por incrível que pareça, o M. C. P., do Porto (26 anos), que namora há cinco anos com uma rapariga que ama muito e que lhe pede para terem relações, não sabe como há-de dizer-lhe que tem três testículos.
A Drª Rita Sampaio responde-lhes muito bem, que isto são coisas da vida e que os jovens são muito sensíveis em relação ao corpo, sobretudo quando se trata de órgãos genitais e que os testículos, a mais ou a menos, não afectam a vida sexual. Ora, um pouco de brilho: punha-se o M. C. P. em contacto com o namorado da Maria, o que eu tenho a mais tens tu a menos, vamos lá entender-nos. O problema ficava resolvido para toda a vida.
Continuamos a deliciarmo-nos com a leitura da Maria.