COM NIJINSKY
Vaslav Nijinsky nasceu em Kiev, na Rússia, a 28 de Fevereiro de 1890, no seio de uma família de origem polaca. Desde cedo manifestou grandes qualidades para o bailado, surpreendendo os próprios professores da Escola Imperial de Dança de São Petersburgo. Estreou-se em palco aos 13 anos, no Teatro de Marinsky e, dois anos depois, sobrepôs-se a todas as estrelas do bailado em Acis et Galatée, de Fokine.
Em 1909, Nijinsky obtém o diploma como bailarino e, durante uma recepção dada em sua honra, é apresentado ao famoso empresário dos Ballets Russes, Serge Diaghilev, que na altura tentava formar um elenco de luxo para levar a sua companhia a Paris. Assim, no ano seguinte, a Cidade Luz viu pela primeira vez ao vivo um dos mais célebres e perfeitos bailarinos de sempre.
O público e a crítica renderam-se ao seu talento na coreografia Le Pavillon d’Armide, sobre o qual escreveu Colette: "Nunca até hoje assisti a tão espectacular exibição ballética. Nijinsky é, possívelmente, o único bailarino que, pelo seu natural dom, consegue efectuar com êxito uma trajectória de quatro metros e meio e regressar ao solo ligeiramente e sem qualquer barulho. A sua técnica magistral é deveras emocionante".
No entanto, algumas vozes se levantaram contra a actuação de Nijinsky, levantando dúvidas sobre se, os espectaculares saltos do bailarino não teriam por detrás qualquer truque. A explicação, segundo o próprio, é simples: "O segredo está nas minhas costas. Quando salto, os meus músculos dorsais estão condicionados e sincronizados com os músculos abdominais, e assim consigo permanecer no ar quase um segundo, o tempo suficiente para marcar o compasso".
Aliás, Nijinsky sempre tentou escapar à norma ballética, causando por isso alguns escândalos, como aquele que sucedeu em 1911, aquando da sua apresentação no Teatro Marinsky, na obra Giselle. O bailarino, contrariando os costumes da época, decidiu não vestir os tonnelets (uma espécie de cinta) por debaixo dos collants …
A PAIXÃO DE ROMOLA
A consagração mundial de Nijinsky surge depois da sua actuação em Monte Carlo, onde executa um pas-de-deux memorável em O Espectro da Rosa. Para Diaghilev, havia chegado a altura de transformar a sua estrela da dança em coreográfo. Assim, em 1912, o empresário e director dos Ballets Russes entrega-lhe a coreografia de L’Aprés-Midi d’un Faune, seguindo-se-lhe Feux. No primeiro, Nijinsky desempenha a figura principal, executando passos totalmente livres (isto é: não clássicos), numa criação fortemente sugestiva, até pagã.
O seu modo peculiar de dançar e de coreografar atingiu o limite em O Espectro da Rosa, obra em que os bailarinos eram obrigados a poses e passos extremamente difíceis de executar. O génio de Nijinsky suscitou a atenção particular de Romola de Pulszky, uma jovem húngara filha de um crítico de arte que assistiu pela primeira vez a um espectáculo de Nijinsky, em Budapeste.
Através de Leopold Poln, Romola consegue chegar perto de Nijinsky, que nos primeiros encontros apenas a saudava cortêsmente. Em Viena, a jovem conhece o temível Diaghilev, um homem de cabeça enorme sobre quem se dizia que, por isso, a mãe morreu ao dar à luz. Romola queria ser bailarina e inscreveu-se nas aulas do mestre italiano Enrico Cecchetti, que a avisou sobre a relação entre o bailarino e o empresário dos Ballets Russes, dizendo-lhe que Nijinsky era não só a obra perfeita criada por Diaghilev, como lhe pertencia enquanto pessoa.
Romola consegiu, ainda assim, contactar de perto com Nijinsky, com quem travava diálogos na presença de um tradutor, visto o bailarino não entender húngaro. Reza ainda a história que Romola se juntou aos Ballets Russes na tournée que os levou à América do Sul. A viagem de transatlântico demorou 21 dias, e nela não seguiu Diaghilev, cuja superstição o impedia de andar de barco, uma vez que uma cartomante lhe havia revelado que iria morrer no mar.
Durante a viagem, Romola ofereceu a Nijinsky um anel de ouro e, no dia seguinte, o bailarino encarregou o barão de Gunsburg de a pedir em casamento. Assim, os sinos da igreja de San Miguel, em Buenos Aires, Argentina, entoaram, a 10 de Setembro de 1913, a marcha de Lohengrin quando toda a companhia de bailado celebrou a união matrimonial dos dois bailarinos. Na manhã seguinte, Nijinsky recebeu um telegrama de Diaghilev, que lhe dizia: "Os Ballets Russes não necessitam mais dos seus serviços. Não permaneça mais. Serge Diaghilev".
DECLÍNIO E LOUCURA
Com o casamento, Nijinsky iniciou o período "negro" da sua existência. Durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto Romola dava à luz Kyra, a filha do casal, Nijinsky passava para o papel novas ideias de coreografias, enquanto estava sob prisão domiciliária, por ser cidadão russo.
Em 1916, o casal chega a Nova Iorque, depois de Nijinsky não ter sido bem sucedido nas suas actuações em Viena, Londres e Paris. Na América, Nijinsky juntou-se de novo aos Ballets Russes, uma vez que o contrato celebrado entre Diaghilev e a Metropolitan Opera House exigia a presença do bailarina na companhia. Em abono da verdade, Diaghilev e Nijinsky não chegaram a reconciliar-se.
Finda a guerra, Nijinsky é abalado com a súbita morte do irmão, vítima de um incêndio que eclodiu no hospício onde se encontrava. Durante um espectáculo de caridade, o bailarino não conseguiu esconder a sua perturbação, tendo sido, dias depois, internado num hospício. Freud e Jung diagnosticaram-lhe esquizofrenia. Romola tentou tudo para o salvar, incluindo dar à luz outra filha, Tamara. Diaghilev tenta pô-lo a dançar na companhia, mas Nijinsky não passou dos primeiros ensaios.
A 8 de Abril de 1950, terminou a vida do homem que revolucionou o bailado no masculino, dando um novo estatuto ao bailarino romântico. Na história da dança, Nijinsky é descrito como o Palhaço (ou Marioneta) de Deus, o título que Philippe Valois escolheu para um telefilme sobre a sua vida. Este e outros filmes são acima de tudo uma homenagem àquele a quem também chamaram o Deus da Dança.
Eu sou Nijinsky, um homem como os outros, não há muito um artista orgulhoso de revelar o seu talento, hoje um pobre doente infeliz, desesperado por não poder ajudar o próximo, ansioso por que o compreendam e ajudem a transportar a sua pesada carga de amor – enfim, "aquele que morre quando não é amado".
Estas palavras revelam bem o sofrimento e a tragédia de um dos maiores mitos do nosso século: Vaslav Nijinsky.