HOTÉIS DE CHARME

 

Salazar preferia a suîte 105 do Avenida Palace para se encontrar com os seus embaixadores. No Mundial, os velhos republicanos debatiam estratégias. A fadista Alice Carvalho viveu no Internacional. Marguerite Yourcenar procurou a paz no Palácio de Seteais. Muita coisa aconteceu nos hotéis de charme.

O Avenida Palace, avô de todos eles, ainda tem no quarto andar uma porta de ligação à Estação do Rossio que outrora dava passagem à grande maioria dos clientes. Ali perto, quase despercebido na rua mais pequena de Lisboa, a da Betesga, está o Internacional. Este tem duas facetas muito especiais. A primeira é que Alice Carvalho, viúva de Valentim de Carvalho e famosa fadista no seu tempo, ali residiu mais de quarenta anos. A segunda é que o Internacional foi até há algum tempo atrás, a residência não oficial dos ourives nortenhos. A famosa família de joalheiros Rosa de Portugal estabelecia ali o seu quartel-general.

Onde começa o Martim Moniz, planta-se o Mundial. Em tempos recebeu como cliente um judeu que vendia as fardas com que o Exército combatia em África. Tinha também um bar, o Oriental, agora fechado, onde se refugiavam velhos republicanos. A revolução de Abril de 1974 marcou o fim do Oriental. Um dos últimos clientes foi Jean-Paul Sartre que, juntamente com Simone de Beauvoir, ali deu uma conferência de imprensa. Não bebiam nada de alcoólico. De aí para cá, só a vinda de Brigitte Bardot alterou a normalidade do Mundial.

Mais acima, numa zona da cidade que estava na moda nos anos 50, nasceu o Ritz. Sempre quis ser "um importante centro de negócios".

Na vila romântica, Sintra, encontra-se um hotel que é tão esplendoroso como o espaço que o rodeia. Foi no Palácio de Seteais que Margarida Yourcenar, acompanhada de Grace Frick, procurou a paz. Inaugurado em 1955 no magnífico edifício do século XVIII que foi propriedade do Marquês de Marialva. É um hotel que respira silêncio, com as suas paredes claras, o mobiliário "Império" e as abóbadas de vidro que deixam ver o campo que o rodeia. A da ala direita dá acesso ao penedo onde, segundo a lenda, Byron se inspirava.

O Palácio sempre foi um lugar de refúgio. Américo Tomaz, usava muitas vezes a Sala Oval do restaurante para os seus lanches de trabalho. O hotel sempre teve um predomínio de clientes estrangeiros, principalmente americanos. Roger Moore, Nixon, Helen MacArthur, William Hurt, passaram por lá. No entanto, três hóspedes marcaram a vida de Seteais: Agatha Christie, um desconhecido holandês chamado Van Thiel e Marguerite Yourcenar.

Arnold van Thiel, o holandês, viveu, em temporadas de seis meses, no hotel, de 1956 a 1987. Um industrial de – imagine-se – cravos para ferraduras.

Podia-se ainda contar a história do Avis, que teve durante muitos anos Calouste Gulbenkian como residente, do Borges e do Americano. Ou do Bragança, onde Salazar contradizia a imagem de asceta que dava ao País.