ECO
Quantas vezes ?
Durmo em trens sem fim
navego em aeroportos sem horas
faço de mim, homem e criança,
três, dez vezes por dia,
receita-me o médico.
Compre na farmácia - diz-me.
Quantas vezes ?
Sou Buda, sou Cristo, sou Maomet.
Não me surja nada adverso,
não desejo confusões.
Caminho pelas grandes naves quadradas,
pintadas em néon branco.
Flutuo sob os astros de oiro
e o céu de veludo azul.
Quantas vezes ?
Afio as garras num exercício escrito,
sou o Homem-Aranha.
Peso-me na balança universal.
Peso a minha caneta, peso o livro,
uma estatueta,
o retrato de meu pai.
Quantas vezes ?
Sugo um drop verde menta,
numa sala vazia,
envolto em pensamentos que não revelo.
Longe, o eco de uma floresta,
tange uma fresca melodia,
que só os olhos da noite, acompanham
e eu, sempre.