NÓ GÓRDIO
A Alguém, O Abandono, A Obscuridade.
Porque razão, deixaria fugir esta vida,
senão a atracção irresistível,
de viver outra vida,
ou mais vidas como esta ?
Aos dias, sucedem-se dias,
depois outros dias,
depois anos
e depois outros anos.
Depois o fim,
inevitável como a noite.
A realidade caminha a passo de gigante.
Para quem partiu e cá não deixou
ninguém,
o vento, as bátegas de chuva,
as ervas, o solo húmido,
são agora os sentidos do passado.
Porquê espero sempre uma resposta,
para tudo o que tiver resposta,
sempre que haja uma resposta,
quando houver resposta,
mesmo que, de antemão,
seja gatilhada em cada resposta,
uma pergunta, com resposta
ou não ?
O cobarde sarcasmo, sempre abominável,
falsamente ou não construído e
perpétuo ovo de todo o tempo,
de que fujo, enquanto é tempo,
é a floresta de reacções caducas,
ornamentais.
Que busco ?
Sei lá ?
Achar compensação na fecunda vastidão
de fardos,
largados e absolvidos,
eternamente condenado.