ÍNDIA (A INDEPENDÊNCIA)
Há quase 60 anos começava o fim do colonialismo europeu, com a sangrenta divisão do Império Inglês da Índia, entre muçulmanos (Paquistão), Hindus (Índia), e budistas (Sri Lanka).
Esta é uma história de palavras, como a de todas as nações: palavras como socialismo, democracia, Estado, resistência; palavras como Índia.
Nobres aspirações pretenderam modelar o futuro, e criaram, afinal, apenas ideologia: chega o tempo da desilusão e a vontade de corrigir os erros invoca a violência.
O modelo de "satyagraha", isto é, de "verdade-força" a que o Ocidente se habituou a chamar não-violência e caracterizou a estratégia de resistência contra o domínio britânico, levada a cabo pelos indianos por inspiração do Mahatma Gandhi, marcou de tal modo a imaginação deste nosso século devastado pela mais nefanda brutalidade, que dificilmente associamos as duas palavras: Índia e violência. Esquecemos que o Mahatma foi assassinado por um membro de uma irmandade hindu de combatentes, a Associação de Voluntários Nacionais (RSS), que hoje governa, por exemplo, a cidade de Bombaim. E esquecemos a profissão de fé do assassino, Nathuram Godse: "Acredito firmemente que o ensinamento da não-violência absoluta tal como Gandhi a advogava teria como resultado final a castração da comunidade hindu".
A RSS constitui hoje uma das formações ligadas ao Partido do Povo da Índia (BJP).
Dos mais de 900 milhões de cidadãos indianos, mais de 100 milhões são muçulmanos (contra apenas 22 milhões de cristãos, 20 milhões de sikhs e 12 milhões de jainas, budistas e parsis).
A dramática separação de 1947 entre muçulmanos e hindus, que deu origem à União Indiana e ao P-A-Ki-S-than ("país do Punjab, dos Afegãos, de Kashmir e do Sindh") não destruiu totalmente a velha vivência intercomunitária de 500 anos. O acordo de separação das duas entidades, patrocinado pelos ingleses, foi alcançado a 3 de Junho de 1947, 73 dias antes da independência. Os massacres foram terríveis, de parte a parte, ou antes, de partes a partes, pois a separação em dois do Punjab levou os sikhs à revolta.Com alguma fleuma, Alan Campbell-Johnson, adido de Imprensa do último vice-rei, Lord Mountbatten, declarava, numa entrevista concedida em 1996: "Afirmou-se que morreram cerca de 500 mil pessoas durante a partição. De modo algum.(…) A maior parte da violência decorreu durante 2 meses e meio, em que foram mortas cerca de 200 mil pessoas".
Muitos hindus tiveram que fugir das suas casas no novo país islâmico, tal como a maioria dos muçulmanos fugiram da Índia.
Os que ficaram tiveram altos e baixos no destino, até se tornarem no principal alvo dos fundamentalistas, sobretudo a partir da fundação do BJP, em 1980 (a revista da RSS, "The Organiser", chama habitualmente ao Paquistão "Napakistan", "terra dos impuros"). O confronto terá atingido o ponto mais alto em Dezembro de 1992, quando a mesquita de Ayodhyah foi destruída, pedra por pedra.
Razão ? Teria sido o lugar do nascimento de Rama, manifestação terrena de Vishnu, comemorado na grande epopeia nacional, o Ramayana, e que lançou as bases míticas da civilização indiana. O BJP transformou o tradicional herói solar numa espécie de Rambo musculado que anima as suas vídeo-cassetes de propaganda numa longa mas vitoriosa luta contra muçulmanos invariavelmente representados como seres hediondos, que, entre outras coisas, se entretêm a matar vacas.
A sociedade de consumo está a chegar à Índia (exuberância ?): alguns comentadores indianos chegaram a afirmar, aquando das comemorações dos 50 anos de independência, que não havia lugar a celebrações, mas tão só a abertura do 50º MacDonald’s.
A morte violenta dos descendentes de Nehru, o primeiro-ministro que leu o discurso da independência, ilustra porém, outro dos problemas indianos, além da violência nacionalista-religiosa: as tendências separatistas. A filha de Nehru, Indira Gandhi (a identidade de apelido com o Mahatma é pura coincidência) foi assassinada por sikhs defendendo uma pátria separada; o filho desta, Rajiv, por nacionalistas do Tamil Nadu (a antiga província inglesa de Madrasta, no Sul.
Um dos principais constitucionalistas indianos, Nani Palkhivala, comentou: "Os condutores não conduzem o povo, enganam-no. São eles os responsáveis por as pessoas se apaixonarem por questões de religião e de casta". Gandhi, declarava por outro lado Paul Zacharia, um escritor de sucesso do Kerala (o estado onde fica Cochim), "sonhou com uma nação em parte porque não havia nação (…) Apenas um conjunto de reinos e algumas unidade administrativas governadas pelos ingleses. Assim, teve antes de mais de criar uma Índia.(…) cada sonho subnacional era diferente. Agora esses desejos individuais começam a agitar-se".
De facto, a ideia de uma só entidade política indiana tem muito a ver com a própria representação dos mapas coloniais, antes de ser assumida pelos independentistas a partir do fim do século.
Se o Partido do Congresso foi, durante muitos anos, o único partido com expressão nacional, tornou-se, pelo menos a partir do consulado de Indira Gandhi, o partido identificado com a corrupção.
Diz o mesmo escritor: "Foi Indira Gandhi que introduziu o cinismo, a rudeza e a política altamente imoral (…) Aí começou o colapso, e nunca mais recuperámos". A corrupção política, a pobreza e o analfabetismo, têm sido sempre, as grandes questões do país.
A miséria é o velho desafio indiano.
P. C. Alexander, antigo secretário de Indira Gandhi, não hesita: "o maior desafio que temos pela frente é trazer o desnvolvimento ao povo, quero dizer, comida, abrigo, roupa, educação primária (…) Assim, a primeira prioridade tem de ser assegurar às pessoas liberdade em relação às necessidades e liberdade em relação ao medo".
Outros preocupam-se com a sobrevivência da herança do Mahatma Gandhi, como Murlidhar Devidas Amte, que começou por trabalhar com leprosos e hoje luta pelos direitos das tribos não indianizadas no Estado de Madhya Pradesh: "a maioria não precisa de pepsi ou de coca-cola, precisa de água; podem ter os vossos arranha-céus e colas, mas antes devem garantir que a rapariga da tribo tenha a privacidade de uma retrete".
Mas a herança do Mahatma parece encontrar-se cada vez mais distante da linha seguida pela sociedade indiana, mesmo se milhares de grupos aí continuam a organizar-se segundo os seus ideais (o "Khadi", o algodão artesanal que ele apontava como exemplo para a auto-suficiência das aldeias.
A Índia olha com desconfiança para os tempos, dividida entre as novas possibilidades de consumo a as antigas e crescentes desigualdades, entre as passadas virtudes e os novos vícios, entre o modelo da paz e da "ahimsa" e a violência comunitária, entre a identidade cultural e as forças centrífugas.
Entre a realidade e o absurdo, como todo este nosso tempo.