LAWRENCE DA ARÁBIA (THOMAS EDWARD LAWRENCE)

 

Não se tenciona relatar em pouca palavras, a vida aventurosa de Thomas Edward Lawrence. Este texto é sobretudo uma abordagem, à figura, enquanto homem.

Nasce em Tremadoc, no Carnarvonshire, no País de Gales, em 1888.

Morre com 46 anos de idade, em 1935, em Bridlington, num triste acidente de motocicleta.

Ia a caminho dos 47 anos, mas parecia muito mais novo; e fácilmente o tomaríamos por um operário especializado, ou por um mecânico de automóveis, em gozo de férias, num passeio de bicicleta. A fama invulgar que aos 46 anos o atingiu fazia-o entrar ao mesmo tempo no mundo da lenda e da história e sujeitava-o às discussões dos críticos. Esta circunstância e o seu carácter complexo levaram-no a isolar-se.

Não é possível contar a história de Thomas E. Lawrence em duas linhas.

Não é tarefa fácil falar sobre Lawrence. Ficamos surpreendidos como se desdobra a vida intensa de uma figura, que foi tão grande, que teve o condão de concitar os aplausos mais apaixonantes, como os ódios mais descaroáveis. É uma figura de lenda, em que a realidade nos surge nimbada por um halo de fantasmagoria e de sonho, como se fosse não uma criação, mas uma abstracção.

A figura avulta entre um emaranhado de factos e episódios; de dores e alegrias; de entusiasmo e insucessos; de dedicações e abjecções.

Surge-nos tão grande nas suas dimensões e contornos, esboroa-se em fumos de irrealidade (?).

Os seus complexos profundamente humanos dão-nos ensejo de tomarmos contacto com uma realidade humana cheia do mais vivo interesse e estudo, dado que a roçam o génio e o santo.

Poderemos avançar que o seu caso constitui um dos episódios mais flagrantes da luta da carne e do espírito – a eterna luta do homem. Dir-se-ia que Deus e Diabo se encarniçaram particularmente pela posse da sua alma e a requestaram com tal veemência que ele acabou por soçobrar malogradamente talvez, nimbado enfim pela luz do alto.

Se interrogarmos a razão por que nos surge uma figura tal como a vemos incarnada em Lawrence, é preciso interrogar a vida, porquanto só a vida, que se manifesta tão poderosamente, é que nos saberia dar uma resposta satisfatória. E há destinos cuja órbita se diria sem órbita, como se aparecessem como estrelas cheias de luz, mais para fascinar do que para iluminar. Lawrence foi uma figura de assombro: assombro para si, como para os outros. Acrescentaríamos que não se perdoou o seu génio e se revoltou com o peso do seu destino.

Seria ele até um inadaptado ao mundo para que nasceu ? Não há dúvida que foi mesmo uma espécie de demiurgo que surgiu para antecipar os acontecimentos. É, pois, de uma riqueza anímica muito profunda. Os limites, em que se viu confinado, desnortearam-no e desadaptaram-no à vida. Viveu como um fogo que se consome sem fim concreto, sem resultado eficaz.

Lawrence, é, pois, um mistério do homem e um fruto da sua época.

É o mistério do homem com as suas circunstâncias, o mistério do homem com os seus paradoxos: aventureiro, investigador, soldado e escritor, asceta e mártir de si mesmo.

Que abismo de riquezas !

No fundo, queria ele a vida – ser a vida – mas como a vida só se remata em Deus na sua plenitude, limitando-se a si, limitava-se ao nada.

Daí, a sua ânsia de nada.

As consequências desta atitude do espírito incarnado nele, numa natureza de fogo – entre sonho e glória, que puderam gerar uma lenda – foram paradoxais. E aqui começa ele, a revelar então, os pés de barro. A sua natureza pairou numa atmosfera doentia. Era cruel para com os outros (?) e cruel para consigo próprio.

O aspecto mais forte da personalidade de Lawrence manifesta-se na sua ânsia de sofrimento sem medida, até ao aniquilamento. Como analisar esta faceta, que é uma vida ?

O seu carácter doentio levou-o até aos limites do suicídio. Não há dúvidas, se afirmarmos, que foi porque lhe faltou o "acréscimo da alma", que só se completaria na outra metade de si mesmo: a mulher.

As mulheres foram para ele um tabu. Não que não soubesse ser gentil e dedicado, mas porque se fechava num círculo de egoísmo, para só admitir umas tantas e de passagem, na sua intimidade – sem expressão vital. Era um esotérico.

As poucas mulheres, que se permitiu conhecer, eram figuras de relevo social, esposas de amigos. Houve nele um endurecimento de orgulho que se não perdoava. E viveu só no seu deserto, onde poucas pessoas chegavam, aliás com tantas figuras de renome a emoldurar-lhe o prestígio.

Lawrence não aguentava o peso da sua riqueza. Era um evadido e procurava a todo o transe o esquecimento. Esquecer o passado, evitar o seu nome, fugir de si, para surgir um outro: "Nascer de novo" – eis o que mais se coadunaria com o seu anseio.

E não se pode dizer sem sentimentos, um homem que era dotado de uma sensibilidade apuradíssima. Paira aqui um vislumbre de mistério que só se explica pelo conjunto das suas reacções em face da vida. Natureza rica, e ávida talvez, de todas as ternuras – só porque as não teve, quando as devia ter – recalcou em si todos esses nobres fervores, para se afundar numa vida sem amor, feita de combustão viva, de alucinação consciente.

Os Setes Pilares da Sabedoria, o livro de Lawrence, estava destinado a ser, muitos anos antes, um livro de viagens sobre sete cidades do Médio Oriente que ele visitara como arqueólogo. O título inspirava-se numa passagem do Livro dos Provérbios, onde se diz que a Sabedoria construiu a sua casa assente sobre sete pilares. No final de contas, Os Sete Pilares da Sabedoria é um livro de aventuras e de poesia em forma de prosa, um emocionante relato de uma viagem interminável, onde um homem sózinho, obcecado, lúcido e louco ao mesmo tempo, sensível e cruel, poético e racional, conduz uma nação dispersa, dividida por querelas tribais e intrigas palacianas, até ao caminho da vitória. É um livro de viagem, um livro de estratégia militar, um tratado de política, um romance de aventuras – "o melhor livro escrito neste século em língua inglesa", na opinião de George B. Shaw.