LISBOA UM OLHAR DIFERENTE
(Testemunho de Vera Lagoa)
VERA LAGOA – Lisboa e a Paixão
Não nasci em Lisboa. Talvez por isso nunca tenha sentido que ela me pertencia. O que sempre senti, é que pertenci a Lisboa.
Em Lisboa cresci . E namorei. Namorei com Pai e Mãe a tomar conta. Mas com a cumplicidade da cidade. Se eu lhe pertencia, ela tinha que velar por mim.
Por isso, não houve jardinzinho, pracinha, banquinho, onde não trocasse os primeiros beijos.
Pai e Mãe ? Sim, mas a minha ama era Lisboa. Na primeira esquina, andávamos um pouco mais depressa e já o beijo tinha acontecido.
Mais tarde, em Lisboa amei. Habituei-me a conhecer de noite a cidade, a vê-la do alto da Graça, a descobrir uma rua que parecia azul, rua que mais tarde o Rudi pintou. Quem se lembra do Rudi ? Não era um grande pintor, mas era uma grande sensibilidade. E como gostava de mim ! E como gostava de Lisboa.
Eu era nova e bonita. Julgava, na época, que Lisboa era minha. Como me enganava ! Eu pertencia à cidade !
Subia o Chiado (como o António Waldemar contava e prometeu contar quando eu morresse) batendo com os saltos no chão e ignorando os olhares dos que esperavam ver-me passar na esquina da Sá da Costa. Pertencia à cidade tanto como a "Brasileira". Tanto como a "Sá da Costa". Tanto como a "Bertrand". Tanto como a "Bénard".
Esta memória não se perde na noite dos tempos. Não foi assim tão distante. Eu passava e Lisboa olhava. Será vaidade ou exagero ? De forma alguma. Eu era uma mulher de Lisboa. Os meus companheiros da "Brasileira" foram desaparecendo, mas ainda restam alguns. Dos mais novos, outros ainda se lembram. E outros repetem: "Dizem que você era a mais bonita". Era a minha moldura.
Dizia o José Cordovil, ao ver uma saia vermelha e verde que eu usava quase sempre (porque vivia exclusivamente do meu trabalho): "Esta mulher é tola. Se eu fosse como ela e tivesse aquela saia, limitava-me a descer o Chiado e a vida vinha ter comigo. Não trabalhava. Todos trabalhavam para mim".
Mas Cordovil aprendeu depois que eu não me vendia, também nunca quis comprar-me. Ele pertencia à Cidade como eu. Éramos colegas. Por mais que nos julgássemos independentes, a Cidade tomava conta de nós.
Acabou-se a saia vermelha e verde. Oh ! Nada de piadas ! Não era provocação. Era a minha saia. Como, mais tarde, só me vestia de cor de rosa. Porque só tinha aquele vestido. E ficava-me bem. Sabia-o. Sabia que, se passeava pela cidade vestida de rosa, como de rosa era o chapéu com que fui esperar Delgado a Santo Apolónia, por mais sofrimentos, por mais acidentes (e se os houve na altura, se houve !) eu era protegida por Lisboa.
Em Santa Apolónia, Ramos da Costa encontrou-me com as pernas em sangue. Os esbirros tinham-me batido. Mas logo outros, como ele, me meteram num carro. Era gente muito tranquila, no tempo, para meu gosto … Mais adiante vi o Jacinto Ramos num mini descapotável. Entrei. Fomos para a Avenida. Eu a pé. Sempre de chapéu cor de rosa. Todos olhavam. Uns riam. Outros orgulhavam-se de mim. Pode alguém rir-se da cidade ? Desta ? Não … Esta cidade amava-me.
Por ela passeava de mãos dadas quando amava e amei a minha conta. Um dia escrevi (já estava no Popular) que, ao deixar de me apaixonar pelas pessoas, me apaixonava pelas cidades. Não .Talvez o já tivesse escrito no "Diabo". Noites de Lisboa em que julgava que amava alguém e era correspondida ! afinal vim a descobrir que era da cidade que gostavam e eu estava incluída nela.
Em Paris, Redol disse-me o mesmo. Que era de Paris que eu gostava. Enganava-se. Morreu nunca o sabendo. Tinha sido mesmo dele que eu gostara. Mas estamos a falar de Lisboa. Paris foi um intervalo. Achava e acho que se deve viver em Paris, pelo menos um ano. Foi o que fiz. Achava e acho que se deve viver em Nova Iorque pelo menos uma ano. Foi o que ainda não fiz. Mas em Lisboa nasci (não para a vida mas sim para o meu percurso de mulher) e em Lisboa vou morrer. Não que o deseje para já mas espero morrer a tempo. Como teria querido morrer naquele dia 1º de Dezembro, em que Manuel Avides me pegou ao colo e me mostrou a Avenida cheia, desde o Marquês até aos Restauradores. Não morri de emoção naquela altura e isso foi-me fatal. Por dentro. Fiquei à espera de uma outra emoção semelhante. Os desfiles continuaram (enquanto foram necessários) mas as emoções não se repetem. Não se podem servir requentadas.
Afinal ali estava Lisboa atrás de mim. Foi a minha coroação. Não porque ainda fosse bela. Não porque me desejassem. Sim, porque tinha sabido dar à cidade (talvez ao País) aquilo de que ela na ocasião necessitava. A coragem.
Pois é. Tenho sempre falado de mim, ao evocar Lisboa. Mas poderá alguém separar-nos ?
Ainda tenho os meus assomos de vaidade no Chiado. Vou arranjar o cabelo à Odette, saio e reencontro alguns dos olhares de antigamente. Vêem-me à transparência. Sabem que por fora já não sou a linda cidade. Mas também sabem que por dentro a memória e a energia me fazem levantar a cabeça. E a olhar as montras. Que já não são tão bonitas. Talvez porque a imagem que reflectem também já não é a da cidade.
Conhecem maior orgulho ? Uma mulher que se compara a Lisboa ? Mas como poderia eu ignorar o que se passava à minha volta ? Não cantavam "Lá vai Lisboa". Mas diziam: "Lá vai a Maria Armanda".
E a Maria Armanda, apaixonada pela cidade a que pertence, onde vive, onde ainda trabalha, a Maria Armanda continua a amar Lisboa.
Esqueci-me de dizer quais os pontos preferidos da minha cidade. Do Chiado já falei. Mas dos muros ? Mas das palmeiras ? Mas dos pátios ? Mas das escadinhas ?
Nem vale a pena falar. Porque ao Chiado ainda vão ver as ruínas. Sem duplo sentido. E talvez mesmo com muitos sentidos. Mas as palmeiras, os pátios, os muros, as escadinhas, quem as olha ?
Não. Os bairros novos não são comigo. Cheguei a trabalhar na Avenida de Roma, lá no fim, ao pé do "Vá-Vá" e vinha todos os dias tomar café à "Brasileira". Que tinha a Avenida de Roma a ver com Lisboa ? Lisboa para mim, chegava apenas à Avenida da República. Para lá eram subúrbios.
Lisboa, para mim, ainda era o "Monumental", onde, depois dos cinemas, ceávamos no Café. Ainda era o caril do "Monte Carlo" (nunca lá voltei). Passo (de largo) pelo "Nacional" que não só ardeu como foi assassinado. Como é feio por dentro ! Passo (de largo) pelo resto todo da cidade, porque não a reconheço. Fixo-me pela Avenida (trabalho ali perto e aquele mamarracho verde e amarelo não me perturba porque o ignoro. Mais na Alexandre Herculano. Depois dos intervalos do Chiado, sigo para as Águas Livres que, apesar de ser agora o parque de automóveis do Ginásio Clube (horror dos horrores) ainda é Lisboa. É a do Castro Soromenho que para ali me levou e dali saíu para morrer no exílio. Em vez dos carneiros que pastavam na Praça há hoje montões de carros. Aquele prédio, aquele nº 8, ainda está à espera de que lhe façam a história. Ali, quem não morou, está para morar. Soromenho dizia que ia escrever-lhe um romance. Um dia, em que nos encontrámos em Paris, disse-me que passava o encargo. Nunca mais o vi. Em São Paulo recordei a sua frase com a Mercedes, sua mulher, uma das mais admiráveis mulheres que conheci. E disse-lhe que não me sentia à altura. Não me sinto.
Por tudo o que escrevi primeiro, vê-se que a modéstia não é o meu forte. Mas se sou vaidosa, de quem é a culpa ? De Lisboa a quem pertenço. Foi ela que me fez bonita quando foi motivo para isso. Foi ela que me fez corajosa, quando me sobejaram motivos.
Só posso falar daquilo a que pertenço. E continuo a estar apaixonada por Lisboa.