TRINTA ANOS DEPOIS - por Miguel Sousa Tavares

(publicado na Revista Grande Reportagem em Março de 1992)

SALAZAR NUNCA PÔS O PÉ EM QUALQUER PARCELA DO IMPÉRIO QUE LHE COMPETIA ADMINISTRAR

Quando se olha para o Mapa de Portugal, nos tempos áureos do Império, sabendo nós o que sabemos hoje do país que somos, fica-se perplexo e incrédulo. Como podia uma nação, de poucos milhões de camponeses iletrados, aspirar a colonizar uma vasta parte de África, metade da América do Sul e dominar todo o comércio do Índico, de Ormuz a Malaca ? Que sonho alucinado, que loucura colectiva, que arrogância movia os portugueses de então ?

O drama dos Impérios é que eles pressupõem uma aura de grandeza que a evolução do mundo não consente nem compreende. Quando Salazar exigia que Vassalo e Silva se portasse em Goa como o Afonso de Albuquerque do século XX, já a Índia estava a caminho de possuir a bomba atómica. Quando a UPA se revoltou no Norte de Angola, em 1961, ainda Salazar julgava que a África portuguesa era governável com o "Estatuto do Indígena", o "imposto de cubata" e algumas ociosas Companhias de Caçadores encarregadas de mostrar a bandeira aos régulos locais. Os "ventos de mudança" de que falava McMillan eram qualquer coisa de incompreensível para o homem cujo mundo se reduzia à distância entre Santa Comba Dão e Lisboa. Salazar nunca pôs o pé em qualquer parcela do vasto Império que lhe competia administrar. A versão de Portugal que o Estado Novo impôs aos portugueses era ditada por um absoluto desconhecimento físico das realidades. O resultado desta política fechada e sem alternativas, o resultado desta navegação contra a História, foi duplamente pernicioso: para o regime e para a oposição. Quando se deu o 25 de Abril, a oposição estava tão mal preparada para enfrentar o problema das colónias quanto o Estado Novo. Na pressa de resolver o que se arrastava há décadas, resumiu-se o desfecho colonial a uma simples e irresponsável orientação:

"Nem mais um soldado para as colónias !"

O resultado é que se meteu tudo no mesmo saco: movimentos de libertação reais, dirigidos por gente de valor, como o PAIGC de Amílcar Cabral, com outros que não passavam de grupúsculos inventados à pressa, como o MLSTP ou a Fretilin; independências que correspondiam a aspirações dos povos locais com outras que mais se assemelharam a um descarte sumário de responsabilidades. No extremo limite da inconsciência, fomentámos a insustentável independência de Timor que degenerou, como era de prever, na tragédia que se conhece.

Hoje, percorremos as antigas colónias portuguesas e ficamos abalados. O resultado de 18 anos de independência é devastador. À excepção de Cabo Verde, todas as ex-colónias estão arruinadas pelos ódios intestinos, pelo dogmatismo político, pela corrupção e pela incompetência. E, do que não foi descolonizado, Timor é um campo de concentração sob a bota dos javaneses e Macau não passa de um centro comercial de bordéis e casinos, gerido pelas seitas secretas chinesas sob o manto diáfano e hipócrita da bandeira portuguesa. A muitos esta constatação dos factos antecede a tentação de concluir que, afinal, o Estado Novo é que tinha razão. É uma tentação sem sentido: não só porque não é possível teimar contra a História, mas também porque não existe apenas ou o colonialismo ou as independências falhadas. O colonialismo português era basicamente iníquo e moral e políticamente insustentável. Mas, porque não há verdades absolutas, a condenação liminar de toda a obra dos portugueses nas ex-colónias – como agora se tornou moda para alguns – não passa de uma manifestação de má fé e, sobretudo, de ignorância.

Esta reflexão está presente e impôs-se-nos ao assinalarmos a passagem de trinta anos sobre três acontecimentos que abalaram o regime e soaram como o dobre a finados do Império: a anexação de Goa pela União Indiana, o começo da guerra de África e a batalha travada por Portugal na ONU para defender as suas colónias.

Ao remexer nas memórias que são de nós todos, procurámos fazê-lo com a prudência de quem aprendeu que a verdade nunca é simples nem imutável.

 

DUAS ALEGORIAS (por Álvaro Barreirinhas Cunhal)

1. HISTÓRIA DO PAÍS DA VERDURA E DO SOL

Havia um rei. Esse rei falava com os pobres. O rei vivia bem, num grande palácio, cercado de riquezas e bem-estar. Mas pensava assim: "Os pobres cobiçam as minhas riquezas, mas não se atrevem a assaltar o meu palácio e as minhas riquezas. Se eu lhes falasse com voz de trovão e os tratasse mal, talvez eles se enfurecessem e então, então … Por isso lhes vou falando com vozes mansas e lhes vou dando pancadas nas costas. E eles me vão chamando a mim".

No país da verdura e do sol, todos falavam alto, discutindo os problemas que lhes interessam. O bom rei e a sua corte ouvem e sorriem.

Mas um dia um pobre começou segredando a outros pobres palavras misteriosas. E outro dia esse grupo de pobres começou a falar alto. E dizia: "Pobres ! Já notastes que o rei vive cheio de riquezas e nós vivemos na miséria ? Para conquistarmos o bem-estar e um futuro risonho é preciso mandarmos no rei, com mil diabos !" E então o rei mandou prender todo esse grupo. E explicou ao povo: "Esses loucos querem perturbar a nossa tranquilidade. Querem impor a violência no nosso pacífico país de verdura e de sol. São inimigos do povo e da pátria". E a grande maioria dos pobres acreditou no bom rei e amaldiçoou os seus companheiros.

O rei ficou inquieto. E, pelo sim pelo não, foi aumentando o número de fardas no país da verdura e do sol.

Os presos cantavam na prisão. E recebiam saudades de alguns amigos sinceros.

2. HISTÓRIA DO PAÍS DO FUMO E DAS FORNALHAS

Em tempos houvera um rei que falava com os pobres e lhes dava pancadas nas costas. Também vivia na riqueza. Mas os pobres começaram a pensar que aquilo não estava certo. Eles nas fornalhas, no fumo e na miséria. E o rei nas amplas salas dos palácios sem nada fazer. E começou a crescer o número de descontentes. Crescia, crescia. E o rei teve medo. E aumentava, aumentava o número de fardas no país do fumo e das fornalhas. E um dia deixou de falar com vozes mansas e de dar pancadas nas costas dos pobres. Passou a falar com voz de trovão e a chicotear.

Então houve alguém que disse: "O rei procedeu assim porque os pobres eram fracos e nada foram capazes de fazer". Mas alguns dos pobres não estiveram de acordo com a explicação. E um deles, mais velho e experiente, disse-lhes: "Não, meus amigos. Se a passagem à violência é uma prova da nossa fraqueza, também é uma prova da fraqueza do rei. Porque ele já não pode continuar a subjugar-nos com as suas doces falas e com as pancadas nas costas. Por isso chamou a brutalidade em seu auxílio".

 

SOBRE AS BRUXAS - por Tiago Cavaco

(publicado no jornal de distribuição gratuita Nova Terra, em Dezembro de 2005).

É do consenso geral que as bruxas existem. Não precisamos de entender muito acerca de feitiçaria para reconhecer uma das suas agentes. O mundo tem muitos bichos em via de extinção. A bruxa não é certamente um deles. A média de bruxas existentes hoje é proporcional à de 500 anos atrás. A ciência deu-nos a vacina para a gripe mas não nos livrou delas. Quem julga que a Humanidade tem vindo a progredir e que o bruxedo é coisa do passado permanece sob o feitiço da ignorância.

Devo admitir que só conheci pessoalmente uma bruxa. Esta não tinha consultório nem cozia sapos no caldeirão. Havia substituído a vassoura pelo aspirador e através de limpezas de pele consecutivas eliminara a possibilidade de verrugas no nariz. O mais curioso é que se lhe perguntasse a profissão ela nunca admitiria ser bruxa. Sei que ainda hoje disfarça trabalhando na área jurídica a ajudar vítimas dos sistema legal. As piores bruxas têm boas máscaras. Enganam os outros e às vezes até as próprias. Distraídamente acabam todos dentro do feitiço.

Como definir uma bruxa ? Temos perdido sabedoria por aliarmos a bruxa aos aspectos folclóricos dos gatos pretos e receitas mágicas. Basicamente a bruxa é uma mulher que faz do mal o seu talento artístico. Bruxaria é menos perversidade e mais talento. A bruxaria pode ser admirada nos seus atributos estéticos: há um objectivo que é atingido através de um esquema negativo mas elegante. Toda a bruxa é vaidosa. O espelho diz-lhe ser a mais bonita. Se a bruxa se não sentisse encantadora executando as suas feitiçarias rápidamente se dedicaria a outro artesanato. A bruxaria faz bem à auto-estima.

Devemos ter presente que o Diabo só propõe negócios vantajosos. O pacto é sempre lucrativo. Mas não faltam registos na História de doentes mentais associados ao Demónio. Também muita gente letrada e briosa pertence à lista. Foi uma péssima estratégia lutar contra as bruxas na Idade Média através da fogueira. Qualquer vaidoso que se preze prefere morrer numa morte violenta e ostensiva e assim destacar-se da multidão anónima que a velhice arrasta. Uma bruxa morre no auge profissional e físico. Deste modo a Igreja fez dos bruxos medievais santos dos nossos dias.

A caça às bruxas é uma actividade inútil. Vale-nos mais detectá-las e evitar o convívio. Foi o que aconteceu com aquela que conheci. Quando me foi revelado que era governanta de Satanás desejei-lhe os bons dias e desfiz-me do seu número de telefone. Soube por portas e travessas que o negócio lhe corre de feição. E que cada vez está mais bem parecida. Quando a alma está condenada é melhor dedicarmo-nos ao corpo.

 

FORREST PARRYInventor da fita magnética

O norte-americano Forrest Parry, antigo engenheiro de informática da IBM, inventou em 1958 um cartão de identificação para os agentes da CIA em que figurava apenas a fotografia e uma faixa de fita magnética que continha a informação. Desta forma, Parry terá inventado um sistema de identificação por meio de uma fita magnética colada sobre um simples cartão, e que desde então foi desenvolvido e aplicado para inúmeras funções nos nossos dias

As mais vulgares são os cartões de crédito, débito, multibanco e sistemas de abertura de portas.

 

TIMOTHY LEARYUMA HOMENAGEM AO PAI DO ÁCIDO

Pessoa alguma, homem ou mulher, nascido na segunda metade do século XX, poderá alguma vez, não ter ouvido falar deste homem.

Timothy Leary, um antigo professor de Harvard e "grande sacerdote" da contracultura hippie, cuja influência muito marcou a geração de 60.

Um filósofo e cientista cujas motivações principais foram a comunicação entre os homens e a compreensão da mente.

Durante os anos 40/50, Leary trabalhou como psicólogo no domínio da interacção humana e tentou revolucionar a ciência propondo ideias radicais, incluindo o conceito de Terapia de Grupo. Demorou quase 50 anos para que os seus estudos fossem reconhecidos.

Mais tarde, ao ser apresentado aos psicadelistas dos anos 60, viu no potencial das teorias deles a possibilidade de criar uma nova terapia psiquiátrica, defendendo os aspectos benéficos do LSD e explorando os seus efeitos no sistema nervoso humano, acabando por ser considerado um Guru do LSD.

Leary, que morreu a 31 de Maio de 1996, viveu uma vida recheada de emoções. As drogas fizeram-no e destruiram-no. Foi preso em 1966, fugiu da prisão e pediu asilo à Suiça em 1970 e voltou a ser capturado pelos agentes do DEA três anos mais tarde e extraditado para os EUA.

Libertado em 1976, passou a colaborar na revolução operada pelo desenvolvimento dos computadores. Até e durante os anos 80 escreveu variadíssimos programas de software e editou vários livros sobre os adventos das novas tecnologias.